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Pode parecer, mas Vasco Lourenço não é o dono do 25 de Abril

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Vasco Lourenço está, outra vez, furibundo. Está, novamente, iracundo. Está, como sempre, exasperado. O motivo para o mais recente agastamento vem explicado nos jornais. Segundo parece, a Associação 25 de Abril, que Vasco Lourenço lidera com uma longevidade que envergonharia os médicos de Matusalém, tinha feito um acordo inabalável nos últimos meses do governo de António Costa. Era, de facto, um trato muito conveniente. De um lado estava o Estado, que generosamente avançava com dinheiro para financiar a criação de um museu sobre a revolução e ainda cedia um imóvel para a sede. Do outro lado estava a associação de Vasco Lourenço, que, com o seu habitual mau humor, receberia tudo isto e, como brinde, seria empossado nas funções de grande ideólogo do novo museu. Uns tempos mais tarde, pelos vistos, surgiram alguns engulhos no processo. Em consequência disso, Vasco Lourenço tem feito saber a quem ainda o escuta que está espantadíssimo porque este museu ainda não avançou. Já eu, estou espantadíssimo por alguém ter alguma vez achado que este museu devia avançar.

Um museu sério sobre o 25 de Abril, ainda por cima financiado com dinheiros públicos, não é um instrumento de promoção pessoal nem é um veículo de difusão de uma visão particular da História. Um museu tem a obrigação de olhar para o passado com distanciamento, com pluralismo e com sentido crítico — três características que, decididamente, Vasco Lourenço não tem. Ao contrário do que gosta de fazer crer, o líder da Associação 25 de Abril não foi omnipotente, omnipresente e omnisciente durante a revolução. Não é ele quem sabe tudo, quem viu tudo e quem fez tudo. Não pretendendo ferir o ego insuflado de ninguém, parece-me útil constatar que Vasco Lourenço não foi o único protagonista do processo revolucionário; foi, simplesmente, um de muitos protagonistas. Tem uma interpretação própria dos acontecimentos durante a revolução que tentou impor ao país nos últimos 52 anos, com toda a legitimidade de quem está numa luta corpo a corpo pelo seu lugar na História — mas essa é apenas uma versão entre várias outras que devem ser ouvidas, pesadas e representadas num verdadeiro museu sobre o 25 de Abril.

Ao longo de várias décadas, os embates retóricos de Vasco Lourenço com as outras versões da História aconteceram à esquerda e à direita. Quando, em 2009, publicou as suas memórias (com o significativo título “Do interior da revolução”), o coronel Costa Martins, que andou na órbita de Vasco Gonçalves e do PCP, escreveu um texto no Expresso em que fazia os seguintes reparos ao autor do livro: “Em alguns casos, inventa factos; noutros — para fugir a responsabilidades, ou por ignorância — diz desconhecê-los; e, em outros, manipula-os e subverte-os, chegando, por vezes, a fazê-lo de forma ridícula e até incorrendo em flagrantes contradições”. Acusando-o de se julgar portador do “dom da ubiquidade”, por imaginar ter estado “em todas as reuniões do MFA”, Costa Martins constata que Vasco Lourenço “não entende que o mundo ultrapassa os limites do seu umbigo”.

Com o outro lado, também houve acusações e incompatibilidades. No seu livro, Vasco Lourenço escreveu que se considera “enganado” por Ramalho Eanes. É que, na cabeça do presidente da Associação 25 de Abril, se o 25 de Novembro se deve a alguém é a ele. Todos os outros, coitados, foram figurantes. “Eanes respondia perante mim”, decretou, para a seguir lamentar que, depois da sua indigitação para chefe do Estado-Maior do Exército, Ramalho Eanes viria a “autonomizar-se” em relação a ele e a “ter iniciativas fora da cadeia de comando”.

Há pior. Nas últimas décadas, Vasco Lourenço não se limitou a elucubrar sobre os seus muitos méritos num determinado período histórico: ele apropriou-se desse período histórico e transformou-o num instrumento de combate político. Sempre que não lhe agradou a orientação de um determinado governo, Vasco Lourenço usou o peso da associação a que preside para aspergir acusações de “fascismo” e para faltar a cerimónias oficiais de comemoração do 25 de Abril, tentando assim ditar quem podia ou não podia apresentar-se como representante institucional do regime democrático. Aliás, esta semana, na sequência da polémica sobre o museu, voltou aos comportamentos de sempre. Com o dedinho estendido, acusou o atual governo de “tentar deturpar a História do 25 de Abril ou, se possível, apagá-la mesmo”.

Nesta sexta-feira, o Expresso informou-nos que António José Seguro está terrivelmente preocupado com as erupções de Vasco Lourenço e até já se terá reunido com ele várias vezes. Segundo o jornal, o novo Presidente da República decidiu “chamar a si a defesa do museu do 25 de Abril”. As coisas vão, por isso, seguir o seu inevitável caminho. Em vez de ter um museu, como merecia, o 25 de Abril vai ter um umbigo. Ainda por cima, o de Vasco Lourenço.

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