Gritar no estádio, calar na política
Poucos notam, alguns pensam, mas quase todos o fazemos, pelo menos quem gosta de futebol. Mas que sensação é esta que às vezes nos atravessa? Que desconforto é este que raramente se verbaliza?
Há uma pergunta incómoda que quase nunca se coloca em Portugal: porque é que nós, portugueses, somos infinitamente mais exigentes com o futebol do que com a política?
Nos estádios, contestamos de forma imediata, visceral e muitas vezes brutal. Um mau resultado provoca, entre os adeptos mais fervorosos, insultos, protestos, pressões públicas, confrontos e, em casos extremos, violência física. No futebol, perder é um contratempo mas é também sentido como uma ofensa coletiva às massas associativas que exige responsabilização imediata.
Na política portuguesa, pelo contrário, a reação popular é de natureza completamente diferente. Escândalos sucedem-se, reformas são adiadas e decisões políticas com impacto profundo na vida coletiva raramente geram níveis comparáveis de indignação pública.
É curioso, mas acima de tudo revelador.
O futebol tornou-se, em muitos aspetos, o espaço onde os portugueses descarregam a exigência e a revolta que raramente manifestam na esfera política. Aquilo que deveria ser participação democrática é frequentemente substituído “megafones de bancada”.
Num estádio, o adepto sente que a sua voz conta. Pode protestar, pressionar, exigir resultados. A política, pelo contrário, é muitas vezes percecionada como distante e inacessível. Paradoxalmente, muitos cidadãos parecem sentir que o desempenho do seu clube afeta mais diretamente a sua vida emocional do........
