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Gritar no estádio, calar na política

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16.03.2026

Poucos notam, alguns pensam, mas quase todos o fazemos, pelo menos quem gosta de futebol. Mas que sensação é esta que às vezes nos atravessa? Que desconforto é este que raramente se verbaliza?

Há uma pergunta incómoda que quase nunca se coloca em Portugal: porque é que nós, portugueses, somos  infinitamente mais exigentes com o futebol do que com a política?

Nos estádios, contestamos de forma imediata, visceral e muitas vezes brutal. Um mau resultado provoca,  entre os adeptos mais fervorosos, insultos, protestos, pressões públicas, confrontos e, em casos extremos,  violência física. No futebol, perder é um contratempo mas é também sentido como uma ofensa coletiva às  massas associativas que exige responsabilização imediata.

Na política portuguesa, pelo contrário, a reação popular é de natureza completamente diferente. Escândalos  sucedem-se, reformas são adiadas e decisões políticas com impacto profundo na vida coletiva raramente  geram níveis comparáveis de indignação pública.

É curioso, mas acima de tudo revelador.

O futebol tornou-se, em muitos aspetos, o espaço onde os portugueses descarregam a exigência e a revolta  que raramente manifestam na esfera política. Aquilo que deveria ser participação democrática é  frequentemente substituído “megafones de bancada”.

Num estádio, o adepto sente que a sua voz conta. Pode protestar, pressionar, exigir resultados. A política,  pelo contrário, é muitas vezes percecionada como distante e inacessível. Paradoxalmente, muitos cidadãos  parecem sentir que o desempenho do seu clube afeta mais diretamente a sua vida emocional do........

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