Hungria: o laboratório do pós-real
À escala europeia, a Hungria é um ator menor. Quem observe a influência política de Viktor Orbán, porém, dificilmente o adivinharia. Com 9,5 milhões de habitantes (um milhão menos do que Portugal) e uma economia que representa menos de 1% do PIB da União Europeia, Orbán governa um país que, pelos números, deveria ter um peso regional modesto. Ainda assim, ao longo de quase duas décadas no poder, Orbán e o seu Fidesz conseguiram capturar a imaginação da direita radical ocidental e posicionar a Hungria como o grande modelo civilizacional conservador a seguir face à ameaça liberal que aparentemente emana de Bruxelas. Para uma parte significativa dessa direita, tanto na Europa como nos Estados Unidos, Orbán é o profeta de um futuro europeu dominado por partidos nacionalistas e abertamente hostis à democracia liberal. As eleições húngaras do próximo dia 12 porão esta narrativa à prova.
A campanha que Orbán tem conduzido para estas eleições é, antes de mais, um estudo de caso sobre aquilo que se pode chamar política pós-real, um fenómeno que encontrou na Hungria o seu laboratório mais avançado, mas que se alastra progressivamente pelas democracias ocidentais. A lógica é simples: quando o registo real é indefensável, constrói-se uma realidade alternativa suficientemente convincente para deslocar e enlamear o debate. Após dezasseis anos no poder, Orbán transformou a Hungria no país mais corrupto e menos livre da União Europeia. O Fidesz controla hoje a maioria das universidades, a função pública, os tribunais e, através de uma rede de oligarcas, praticamente toda a comunicação social do país, assim como cerca de um quinto da sua economia. O resultado económico é uma estagnação que se tornou impossível de ocultar, com um crescimento de 0,4% em 2025 e uma inflação que chegou aos 17% em 2023, sendo a mais elevada de toda a União Europeia. Falar da Hungria seria, inevitavelmente, falar do próprio fracasso.
Por isso, apesar de Orbán reivindicar sistematicamente as suas credenciais nacionalistas, a campanha do Fidesz não fala da Hungria. Os slogans, os anúncios e as publicações nas redes sociais têm-se centrado quase exclusivamente em ataques a Peter Magyar, o líder da oposição e antigo membro do próprio Fidesz que encabeça o partido Tisza, na suposta ameaça ucraniana e nos perigos de Bruxelas.
O principal esforço propagandístico tem sido construir um cenário de invasão ucraniana iminente, a narrativa de que os ucranianos estão a roubar........
