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Etiópia: Onde as guerras se cruzam

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29.09.2026

Perante a Ucrânia,  Gaza e o conflito com o Irão, talvez pareça haver pouco espaço para mais uma guerra. E, no entanto, o conflito mais mortífero deste século não foi nenhum dos que têm ocupado o nosso saturado espaço mediático. Esse infeliz título pertence à guerra do Tigray, travada entre 2020 e 2022 no Norte da Etiópia, que terá provocado mais de 600.000 mortos e milhões de deslocados. A brutalidade deste conflito é difícil sequer de adjetivar. Em 2021, os Estados Unidos classificaram como uma limpeza étnica os atos cometidos contra os tigrínios no Tigray Ocidental, e foram registados massacres e atrocidades de ambos os lados. A guerra acabou por terminar em novembro de 2022 com o Acordo de Pretória. Agora que o conflito na Etiópia regressa, evitar que o Tigray se transforme novamente numa tragédia exige precisamente que alguém olhe para ele.

Menos de quatro anos depois do Acordo, a principal novidade não são os renovados confrontos per se, mas a reorganização, ou melhor, inversão, das alianças regionais. As milícias Fano de Amhara, que combateram ao lado das forças federais contra a Frente de Libertação do Povo do Tigray (TPLF)  de 2020 a 2022, integram agora, juntamente com a própria TPLF, uma nova aliança de sete grupos armados contra o governo federal de Abiy Ahmed. Isto significa que as alianças que sustentaram a guerra anterior estão a ser redesenhadas.

E o impacto desta reorganização vai muito para além das fronteiras etíopes. O Corno de África é uma das regiões de maior valor estratégico do mundo, contendo algumas das terras mais férteis do planeta. As reservas de ouro do Sudão alimentam há anos o conflito e os minerais abundantes na Eritreia e na Etiópia são peças cada vez mais importantes para as economias ocidentais mais desenvolvidas. E é também por aqui, na margem ocidental do Bab el-Mandeb, que passa uma parte substancial do comércio marítimo entre a Europa e a Ásia, uma rota que, com a guerra no Irão, se tornou absolutamente decisiva. Não surpreende, por isso, que a região se tenha tornado um dos principais palcos da disputa por influência entre os parceiros mais próximos do Ocidente no Médio Oriente. Da Turquia à Arábia Saudita, dos Emirados a Israel, estas rivalidades encontram hoje no Nordeste Africano um dos seus principais pontos de ebulição.

A geopolítica no Corno de África é complexa (para o dizer de forma diplomática), mas talvez nenhum país o ilustre melhor do que a Etiópia. A TPLF foi fundada em 1975 para defender a minoria tigrínia dos abusos do poder central em Adis Abeba, sobretudo durante a ditadura Derg. Liderou a ofensiva que derrubou o regime em 1991 e, apesar de os tigrínios representarem apenas cerca de 6% da população, tornou-se durante quase trinta anos a força dominante da política etíope. Esse domínio terminou em 2018, com a ascensão do atual primeiro-ministro Abiy Ahmed, oriundo dos Oromo, o maior grupo étnico do país. Abiy desmantelou de forma quase imediata a influência dos tigrínios no Estado federal.

Em paralelo, Abiy procurou emendar as relações com os seus vizinhos, nomeadamente com a Eritreia, que se tornou independente da Etiópia em 1993 e que, desde a guerra de Badme (1998-2000), vivia com Adis Abeba num clima de tensão permanente. Os esforços de normalização das relações entre os dois países valeram inclusivamente a Abiy o Prémio Nobel da Paz de 2019.

Mas os bons augúrios foram rapidamente desfeitos. Em novembro de 2020, depois de a TPLF atacar o Comando Norte do exército etíope, as tensões........

© Observador