A arte das duas verdades
Quando George Orwell criou o conceito de “doublethink” em 1984 — a capacidade de aceitar simultaneamente verdades contraditórias —, estava a descrever uma distopia onde os cidadãos eram forçados, pelo Big Brother, a essa aceitação. Não imaginou que, setenta e cinco anos depois, o doublethink se tornaria a gramática comum na base do discurso político das democracias contemporâneas. Hoje, movimentos populistas navegam por contradições flagrantes sem qualquer constrangimento, protegidos por seguidores que desenvolveram uma arte quase religiosa de reinterpretar, racionalizar ou simplesmente ignorar as inconsistências dos seus líderes. Tal como tantos crentes que partem do pressuposto da perfeição do seu texto sagrado, os apoiantes destes novos populismos tratam os seus líderes como infalíveis. Logo, a falha nunca é, nem pode ser, do dogma. É sempre de quem não soube compreendê-lo.
Esta dinâmica cria um ciclo destrutivo. Quanto mais evidente se torna a contradição, mais os críticos a sinalizam, e mais os apoiantes se entrincheiram. A crítica externa deixa de funcionar como correção para se tornar prova de que “forças hostis” procuram destruir o movimento. O critério de validação muda radicalmente. A verdade deixou de ser um critério objetivo para se tornar uma extensão da identidade do grupo. Uma afirmação já não é avaliada pelos seus méritos ou pela sua correspondência com os factos, mas apenas por referência ao que o grupo defende. Se confirma as crenças do movimento, é, sem dúvida, verdade. Se as contradiz, só pode mais uma mentira propagada pelos “inimigos”. Os factos tornam-se suspeitos, porque o objetivo deixou de ser compreender a realidade e passou a ser sinalizar pertença.
Esta mutação representa o colapso de uma das premissas fundamentais e fundadoras da democracia moderna. Desde o Iluminismo acreditávamos que cidadãos racionais e devidamente informados tomariam as melhores decisões com base na evidência. Essa crença ruiu. Parece estar a emergir, no........
