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A ciência ao serviço do tratamento do cancro da bexiga

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06.03.2026

O cancro da bexiga resulta grandemente de fatores de risco, sobretudo ambientais, como o tabagismo, a exposição na indústria têxtil a tintas, a borracha, a infeção crónica por parasita, entre outros. De acordo com os dados mais recentes do Globocan, entidade da Organização Mundial de Saúde, é o quarto cancro mais diagnosticado em homens – logo a seguir ao da próstata, ao colorretal e do pulmão –, com mais de 2500 novos casos por ano. Considerando ambos os sexos, é o sexto mais comum, com um total que ultrapassa os 3500 casos por ano, em Portugal.

A principal manifestação clínica que leva ao diagnóstico é a presença de sangue na urina, sem dor. Isto embora possa ocorrer associado a sintomas irritativos semelhantes a infeção urinária, podendo até resultar em atrasos na sua descoberta. É um cancro para o qual não existe rastreio e, por vezes, é diagnosticado “acidentalmente” no decurso de exames com outras finalidades. Mesmo em simultâneo com o diagnóstico do cancro da bexiga, ou mais tarde durante o acompanhamento do doente, podem ser diagnosticados cancros noutras localizações urinárias, mas também noutros órgãos, como por exemplo no pulmão, uma vez que o tabagismo é um relevante fator de risco para diferentes tipos de tumores.

Nos casos de doença inicial, é dividida em dois grandes grupos: não invasiva do músculo e músculo-invasiva, referindo-se à camada muscular que compõe a parede da bexiga. A maioria dos casos corresponde a doença não músculo-invasiva, tratada com resseção endoscópica – um procedimento minimamente invasivo de remoção de tumores – seguida de vigilância ou tratamentos, consoante o nível de risco de recidiva, ou regresso da doença, avaliado em reunião médica multidisciplinar.

É comum a utilização da vacina BCG – sim, contra a tuberculose! – administrada no interior da bexiga, estimulando o sistema imunitário a permanecer vigilante neste órgão. É necessário um seguimento regular, que, por exemplo, inclui cistoscopia, uma endoscopia no interior da bexiga, testes moleculares e citológicos da urina.

Nos casos de doença músculo-invasiva, esta mais preocupante, o tratamento padrão é a remoção cirúrgica da bexiga. Na maioria dos casos, está previsto tratamento antes ou depois da operação, iniciado antes da cirurgia e completado depois dela – e, nos casos em que tal não é possível, poderá haver lugar apenas para tratamento pós-operatório, com intuito de redução do risco de regresso da doença.

Com os resultados mais recentes de resposta patológica completa, com a ausência de células cancerígenas na bexiga, após a sua remoção, a situarem-se entre os 40-60%, começa a ser discutida a possibilidade de criar protocolos para adiar, ou até mesmo evitar, a cirurgia de remoção da bexiga. Aliás, em casos seleccionados com contra-indicação para cirurgia, ou por preferência do doente, a radioterapia associada a quimioterapia surge como opção válida alternativa. Nos casos de doença metastizada, existem hoje várias opções terapêuticas eficazes, em monoterapia ou em associação, tais como anticorpos conjugados com fármacos, imunoterapia, terapêutica-alvo e a quimioterapia clássica.

O prognóstico dos doentes tem melhorado significativamente nos últimos anos e a atividade científica intensa em curso faz prever grandes desenvolvimentos no futuro, sendo tema recorrente em reuniões científicas. É exemplo disso a reunião internacional Uronext que vai acontecer em março, em Lisboa, fruto de uma parceria entre o Hospital CUF Tejo e a Clínica Universidad de Navarra. Nela vamos discutir inovações do tratamento sistémico, além do uso da inteligência artificial e da robótica nos cancros urológicos, procurando elevar a excelência na resposta às necessidades destes doentes.

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