Nem só de ilusões vive o Homem
O que faz os norte-americanos quererem viver em Portugal? Uma pequena pesquisa pelas manchetes dos jornais nacionais e internacionais dá-nos a resposta: o sol, a comida, o vinho, a segurança, a tranquilidade e, acima de tudo, a qualidade de vida, essas palavrinhas mágicas das quais tanto se fala, como se fossem algo que, cada vez mais, se encontra à venda. À partida, os norte-americanos procuram viver em Portugal pelas mesmas razões que um português. Mas o português, ao contrário do norte-americano, já aprendeu que nem só de ilusões vive o Homem.
No início de 2023, o Observador dava-nos conta de que em 2022, 10 000 norte-americanos residiam em Portugal, uma subida de, imagine-se, 239% face a 2017. Já no final de 2024, uma notícia do jornal Público, alertava para os efeitos no sector imobiliário, e acrescenta “Chamam-lhe a Califórnia da Europa”.
Há um fenómeno a acontecer nos grupos do Facebook, já são dezenas os grupos onde diariamente são publicados posts, conversas, perguntas, dicas, sugestões e formas de acelerar os processos burocráticos, nomeadamente na AIMA. A resposta? Sempre Portugal. Expats Families With Kids Moving to and Living in Portugal; Portugal Expat Hub; Expats Lisbon; Expat Life Portugal são apenas alguns exemplos de grupos nas redes sociais, onde a soma de membros já atinge quase 100 000 pessoas. A esmagadora maioria? Norte-americanos.
Pouco mais de meia hora em contemplação e a sentir o majestoso sol de Lisboa na zona da Alameda, por exemplo, fazem-nos perceber quem está a viver nas casas em redor. Não são os nossos amigos, os nossos familiares, os nossos colegas… são antes os nossos vizinhos transatlânticos. Parecem sorridentes e são amáveis; os que acabaram de chegar estavam desanimados com as chuvas, mas rapidamente o sol faz a sua magia, e já só querem ir à procura das praias, do Guincho, da Ericeira… Os que já cá estão há alguns anos, falam-nos dos planos de voltar para a América. Parecem menos sonhadores, acenam com a cabeça em sinal de resignada compreensão quando nós, portugueses, lhes dizemos qualquer coisa como “we have many problems here… a lot of things don’t work really well” (nós temos muitos problemas aqui… muitas coisas não funcionam bem). Uma senhora norte-americana, dos seus 40 anos, mãe de 3 filhos, diz-me assim “yeah, this is not a good place to work” (sim, isto não é um bom sítio para trabalhar). Pois não.
Muitos fogem da eleição de Trump, outros vêm procurar uma vida que, possivelmente, é apenas uma imagem intacta que todos conservamos no nosso imaginário. Um norte-americano, membro de um dos grupos de Facebook, elucida-nos numa caixa de comentários, com dados que diz serem da AIMA: “50% leave within 2 years; 25% more leave by 5 year mark” (50% abandonam o país em 2 anos; 25% ao fim de 5 anos). A prova parece estar dada: os norte-americanos também se desiludem com Portugal, ou então estavam só de passagem, ou então não encontraram o que procuravam. Desiludidos ou não, a verdade é que, durante o tempo que cá estão, é bem provável que vivam melhor e com mais condições do que aquelas com que o português médio vai viver durante a sua vida.
A verdade é que Portugal não é só sol, belas paisagens, praias de tirar o fôlego, comida de chorar por mais, pessoas que queremos levar para a vida, uma História como nenhuma outra. Não, Portugal é ingrato para os seus, e até para os que vêm de fora, na expectativa de concretizar uma vida que não existe realmente. Mas, quem queremos enganar? Quando a luz de Lisboa se esbate no Tejo dourado, o que é que importam os preços proibitivos, os serviços de saúde obsoletos, as rendas que se riem nas caras dos nossos salários, as corporações e as burocracias de um país adiado, os norte-americanos que nos fazem sentir ainda mais pobres no país onde nascemos? Nada importa por um momento, mas nós também não somos feitos de ferro e, quando os dias amanhecem sem sol, uma pergunta ecoa: Por quanto mais tempo vamos aguentar?
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