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"Hail Mary"

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14.04.2026

Já leu “Project Hail Mary” de Andy Weir? Se ainda não, devia fazê-lo, no género de ficção foi o melhor que li em 2025.

O romance centra-se na personagem do Dr Ryland Grace, um professor de ciências que acorda desmemoriado, no espaço a bordo de uma nave espacial. Está isolado, sem companhia e todo o envolvimento é para ele um incompreensível mistério. Sem memória de quem é, ou quais os acontecimentos que o ali levaram, todas as questões existenciais que coloca tornam-se metafísicas – não tem como lhes dar resposta. O seu mundo limita-se àquele espaço e aos factos que observa.

O livro mistura de uma forma admirável mistério, humor inteligente, uma amizade improvável e um domínio notável de áreas tão díspares como física, astronomia, engenharia e biologia. Ao engenho descritivo associa ainda um rigor científico sem a vulgar e enfadonha prosápia académica. Se gosta de ciência, ficção e mistério, este é um livro a não perder.

Porém, o intuito de o citar – vi recentemente o filme de Christopher Miller e, resumidamente, leia o livro – é o de sublinhar um aspeto particular da história.

O Dr Ryland Grace, acorda numa nave espacial sem memória, sem saber o porquê da sua situação. Andy Weir utiliza este momento como ponto de partida de um enredo que desenvolve em paralelo. Na história do presente deixa-nos em suspenso com a sucessão de acontecimentos, a segunda desenvolve-se à medida que recupera a memória. Neste processo vai recordar um passado que lentamente se expõe e lhe dá as respostas que necessita para compreender o porquê da sua presença, o objetivo da missão e quais as ferramentas disponíveis para a desempenhar. Sem memória, sem informações do passado, estaria condenado a um pequeno espaço, um mundo que não iria compreender além do que o minúsculo cubículo permitiria.

Se já leu outros textos meus, vai pensar que estou a regressar à alegoria de Platão. E tem razão em pensar isso. O aspecto que pretendo realçar prende-se exatamente com os limites do conhecimento e de que forma um limite pode ser usado no controlo da própria sociedade.

O maior limite ao conhecimento não é a ignorância. É a sensação de que já sabemos o suficiente. Enquanto sabemos que não sabemos, procuramos. Quando julgamos que tudo sabemos e nada mais há a compreender, deixamos de ver para lá do horizonte da evidência. O mundo do Dr Ryland Grace, era assim, escasso e limitado. Sem acesso a uma visão exterior, no romance representado pela memória, não tinha como interpretar a sua realidade.

Alinhando com um texto anterior (https://observador.pt/opiniao/tartarugas-cansadas), sem conhecimento exterior a um processo de que fazemos parte não temos como o compreender. Falta sempre algo que complete e dê sentido ao conhecimento. Como defende Kurt Gödell, um sistema fechado não consegue garantir verdades absolutas. Sem a “metalinguagem” de Alfred Tarski não podemos garantir se a verdade não é apenas algo enviesado, quando não mesmo, um engano. Sem o conhecimento exterior, estamos vulneráveis. E quando algo de novo surge, espantamo-nos com o que nunca tínhamos imaginado – os cisnes negros, The Black Swan de Nassim Nicholas Taleb. São sempre “Cisnes Negros” o que decreta o funeral de muitas verdades axiomáticas. Porém, tudo se renova, e um novo conhecimento edifica-se à luz de uma nova verdade. Verdades que descortinamos numa encadeada sequência de questões e surpresas.

As novas abordagens, as novas perspetivas, não trazem apenas conhecimento, são a origem da instabilidade de quem nunca tem como chegar à derradeira verdade. Porém, quem pela primeira vez aborda os problemas de fora não........

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