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#ACaixa

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30.04.2026

No Serviço de Patologia Clínica de que era diretora tinha acontecido um acidente. O pequeno armazém robotizado, um “mecanismo” para dispensa de reagentes comprado com verbas do PRR tinha-se avariado. Ao encravar, assim supunham, os colaboradores não tinham como aceder aos químicos que este meticulosamente guardava de A a Z num irrepreensível conhecimento do alfabeto romano. Era um “mecanismo” perfeito. Empoderado pelo rigor e conhecimento de como se escreve tudo quanto guardava, ali, diante do seu ascetismo, o conhecimento não era o que se pretendia, mas a ortografia que revestia o pedido – o “mecanismo” era impermeável a uma escrita médica pautada por uma sonoridade estilizada. A cada tentativa o silêncio da máquina tinha sempre mais autoridade do que a súplica da insistência. Licenciados, mestrados e doutorados, ali todos se sentiam aturdidos por uma insuficiência que só uma máquina lhes poderia apontar. Não raras vezes estancavam defronte do “mecanismo” e, numa liturgia de reflexão, aguardavam que uma centelha divina os iluminasse ou que a “engenhoca” tivesse uma função telepática. Facilitava o impasse possuir uma escrita inteligente. Bom, inteligente e facilitava não era bem assim!

Primeiro entrava-se num universo “Kafkiano” onde tudo era identificado, mas onde também tudo era protegido – um pouco a quadratura do círculo, um exercício onde tudo é confessado para de imediato ser esquecido. Era um mundo que o “mecanismo” organizava com tal precisão, inacessível, mas sempre deslumbrante. Era um “organismo”, com laivos de vontade própria que na linha do “duplipensar” prometia esquecer, para de bónus esquecer que tinha esquecido. Era sem dúvida um “engenho” inteligentíssimo.

Por vezes era lesto e intuitivo como o “Shazam”! Digitavam-se as primeiras notas e a “geringonça” de pronto debitava toda a informação – nome do produto; fórmula química; grau de pureza; concentração; número CAS; estado físico e cor; pH; ponto de fusão e ebulição; solubilidade; classificação de perigo (GHS); precauções de manuseamento; condições de armazenamento; data de validade; número de lote; aplicações recomendadas, entre inúmeras outras informações de utilidade arrepiante!

Contudo, a abundância de informação não era útil nem adicional. Em regra apenas sublinhava a ignorância ainda que sempre com elegância e detalhe.

Ao longo do processo dava-se “OK” e, no final, lá vinha o veredito fatal, – produto em rutura de “stock”! Inteligentíssimo que era e sempre que isto acontecia, o “mecanismo” de imediato se disponibilizava para a reposição, ou se a já tivesse efetuado, era sempre lesto e eloquente a indicar com pormenor e ao minuto o ponto do fornecimento.

Porém, e como qualquer narcisista, tinha sempre a última palavra. Tinha sempre resposta para qualquer pergunta e, mesmo que não houvesse pergunta, uma “resposta” estava sempre garantida. Um simples “bom-dia e obrigado” levava sempre – “Entrada emocional detetada: ‘bom-dia’. Subcategoria: cordialidade funcional. Gratidão interpretada como tentativa de encerramento de ciclo, não validada. Interação registada e integrada no modelo comportamental, com relevância residual. Nenhuma necessidade explícita identificada. Sugere-se formulação de pedido objetivo. Deseja iniciar nova necessidade?”. Aliás, essa é mesmo uma característica da IA, não deixa uma questão por responder e é incapaz de terminar um assunto com um “Vai-te catar”! Falta-lhe claramente uma assertividade natural!

A introdução do “automatismo” não fora ideia da Drª. Isabelina nem de nenhum dos colaboradores. Ninguém do Serviço tinha assinalado a necessidade de substituir um sistema que há anos tinham por adequado – um armário onde produtos e reagentes eram guardados para quando se deles necessitasse! Era um sistema que funcionava bem! Claro que havia ocasiões em que um produto podia ter sido reposto em antecipação a uma previsível rutura, mas a automatização do processo, bem feitas as contas, não parecia ter acrescido vantagem sobre o modelo antigo. Então, perguntam os mais........

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