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#ACaixa

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No Serviço de Patologia Clínica de que era diretora tinha acontecido um acidente. O pequeno armazém robotizado, um “mecanismo” para dispensa de reagentes comprado com verbas do PRR tinha-se avariado. Ao encravar, assim supunham, os colaboradores não tinham como aceder aos químicos que este meticulosamente guardava de A a Z num irrepreensível conhecimento do alfabeto romano. Era um “mecanismo” perfeito. Empoderado pelo rigor e conhecimento de como se escreve tudo quanto guardava, ali, diante do seu ascetismo, o conhecimento não era o que se pretendia, mas a ortografia que revestia o pedido – o “mecanismo” era impermeável a uma escrita médica pautada por uma sonoridade estilizada. A cada tentativa o silêncio da máquina tinha sempre mais autoridade do que a súplica da insistência. Licenciados, mestrados e doutorados, ali todos se sentiam aturdidos por uma insuficiência que só uma máquina lhes poderia apontar. Não raras vezes estancavam defronte do “mecanismo” e, numa liturgia de reflexão, aguardavam que uma centelha divina os iluminasse ou que a “engenhoca” tivesse uma função telepática. Facilitava o impasse possuir uma escrita inteligente. Bom, inteligente e facilitava não era bem assim!

Primeiro entrava-se num universo “Kafkiano” onde tudo era identificado, mas onde também tudo era protegido – um pouco a quadratura do círculo, um exercício onde tudo é confessado para de imediato ser esquecido. Era um mundo que o “mecanismo” organizava com tal precisão, inacessível, mas sempre deslumbrante. Era um “organismo”, com laivos de vontade própria que na linha do “duplipensar” prometia esquecer, para de bónus esquecer que tinha esquecido. Era sem dúvida um “engenho” inteligentíssimo.

Por vezes era lesto e intuitivo como o “Shazam”! Digitavam-se as primeiras notas e a “geringonça” de pronto debitava toda a informação – nome do produto; fórmula química; grau de pureza; concentração; número CAS; estado físico e cor; pH; ponto de fusão e ebulição; solubilidade; classificação de perigo (GHS); precauções de manuseamento; condições de armazenamento; data de validade; número de lote; aplicações recomendadas, entre inúmeras outras informações de utilidade arrepiante!

Contudo, a abundância de informação não era útil nem adicional. Em regra apenas sublinhava a ignorância ainda que sempre com elegância e detalhe.

Ao longo do processo dava-se “OK” e, no final, lá vinha o veredito fatal, – produto em rutura de “stock”! Inteligentíssimo que era e sempre que isto acontecia, o “mecanismo” de imediato se disponibilizava para a reposição, ou se a já tivesse efetuado, era sempre lesto e eloquente a indicar com pormenor e ao minuto o ponto do fornecimento.

Porém, e como qualquer narcisista, tinha sempre a última palavra. Tinha sempre resposta para qualquer pergunta e, mesmo que não houvesse pergunta, uma “resposta” estava sempre garantida. Um simples “bom-dia e obrigado” levava sempre – “Entrada emocional detetada: ‘bom-dia’. Subcategoria: cordialidade funcional. Gratidão interpretada como tentativa de encerramento de ciclo, não validada. Interação registada e integrada no modelo comportamental, com relevância residual. Nenhuma necessidade explícita identificada. Sugere-se formulação de pedido objetivo. Deseja iniciar nova necessidade?”. Aliás, essa é mesmo uma característica da IA, não deixa uma questão por responder e é incapaz de terminar um assunto com um “Vai-te catar”! Falta-lhe claramente uma assertividade natural!

A introdução do “automatismo” não fora ideia da Drª. Isabelina nem de nenhum dos colaboradores. Ninguém do Serviço tinha assinalado a necessidade de substituir um sistema que há anos tinham por adequado – um armário onde produtos e reagentes eram guardados para quando se deles necessitasse! Era um sistema que funcionava bem! Claro que havia ocasiões em que um produto podia ter sido reposto em antecipação a uma previsível rutura, mas a automatização do processo, bem feitas as contas, não parecia ter acrescido vantagem sobre o modelo antigo. Então, perguntam os mais incautos nestas coisas, se não fazia falta, a que se deveu a alteração? Bom, a resposta é simples, ninguém sabe!

Mais tarde, quando a “geringonça” encravou, questionados sobre os motivos da substituição, verdadeiramente ninguém sabia resposta, nem a quem atribuir responsabilidades. Podia ter sido a vertigem do novo, da novidade, poderia alguém ter-se deslumbrado por “mecanismo” idêntico, podia ter ocorrido apenas porque o hospital do outro lado da cidade já se tinha modernizado. Podia ter sido porque um SNS repleto de notícias decrépitas necessitava da “ilusão” do novo, da melhoria contínua, podia sim, ter decorrido dessa fé na melhoria perpétua e da espiral da qualidade. Podia ter decorrido de qualquer uma destas, mas também o podia apenas por haver verbas do PRR disponíveis, dinheiros e oportunidades de negócio a precisar de projetos! Podia ter sido por tudo isto e ainda também por motivos mais prosaicos como novas oportunidades, comissões a distribuir, favores a pagar, rituais pagãos, ou uma causa sempre presente, o financiamento de terceiros. Ao certo não sabemos, podia ter sido apenas por um qualquer destes motivos, ou numa constelação de todos ou parte deles, ao certo não sabemos, mas, aqui chegados, que aconteceu, aconteceu, ainda que e como de costume, fique difícil encontrar a quê ou por quem diluir as responsabilidades.

Agora que o tinham feito, questionavam-se da utilidade da medida! De início o “mecanismo”, depois de um exagerado número de questões que, para os informáticos funcionam como preliminares, operava na perfeição. Terminado o formulário, o produto era prontamente cedido na rampa de disponibilização. Bom, prontamente é bastante subjetivo. Se para uns prontamente era o tempo em que uma sombra se dilui na própria sombra, para a maioria, entre o pedido e a resposta, havia sempre um intervalo onde a lógica se suspendia. A magnificência era tal que, como para um qualquer crente, a entrega era vista como um milagre, onde, a não ocorrer, resultaria sempre de alguma falha do pecador. No fim, o ”mecanismo” não impunha regras, apenas as revelava no exato momento em que eram infringidas.

Porém, com o tempo, algo de biológico se desenvolveu naquela “engenhoca”. O que de início era um automatismo primeiro pareceu adquirir vontade própria para, lá mais adiante, dar ares da complexidade de gestão. O que de início era uma sequência de preliminares, introdução de pedido e disponibilização de produto, com o tempo passou a assumir-se como uma embriogénese antes de algo ter o seu “alumbramiento”.

E um dia, numa daquelas urgências em que um reagente era necessário, ali … já … num desses momentos em que a natureza das coisas não se compadece com o tempo normal de uma “gestação” e uma entrega “eutócica”, num desses dias uma acção drástica teve de ser tomada. Esventrado o “mecanismo”, obtido o “nascituro” reagente em “cesariana” improvisada, ali, no corredor e sem a preparação e assepsia adequada foi, mesmo ali, que se entrou pelo “mecanismo” adentro como forma de obter o que se pretendia. Só que, e o infortúnio tem destas coisas, o que inicialmente era um orifício de entrada, rapidamente se transformou numa cloaca de saída e tudo quanto lá estava acabou expelido ou evacuado. Foi uma “m****” no sentido literal e metafórico do termo.

Com tudo espalhado no corredor onde o equipamento residia, todos os produtos meticulosamente armazenados e zelosamente arquivados de “A a Z” estavam agora espraiados nos largos metros por onde aquela “diarreia” se tinha dispersado.

A Drª. Isabelina Barbosa precisava de uma caixa, de várias em boa verdade!

Se para a aquisição da “geringonça” todos os esforços foram desenvolvidos para impedir uma aquisição que se entendia desnecessária, agora, os esforços teriam de ser aplicados em sentido contrário e na tentativa de se obter algo que se tinha por indispensável. E aqui, o prefixo (in) parece fazer toda a diferença no sentido que a volição determinava.

Se antes todos se indignaram por lhes ser dado algo que não pretendiam, agora a indignação advinha da dificuldade em obter a ou a(s) caixa(s) que tinham como (in)dispensáveis.

Se à partida pensa que o processo estava facilitado por a Dr.ª Isabelina ter uma pós-graduação em gestão e um MBA na área, desengane-se o leitor. Nem tão excelsas habilitações, nem a organização da Unidade Local de Saúde em Unidades de Negócio, nem cada uma delas em timbrados Departamentos, cada um deles adequadamente abastecido de magnificentes equipas de gestão, nem por no seu Serviço a direção ser adjuvada por dois Enfermeiros gestores, lhe foram de utilidade proficiente quando das ditas caixas necessitou.

Foi então, e por sugestão de uma sempre esforçada equipa de gestão, que lhe veio a sugestão de as requisitar à Unidade de Compras e Aprovisionamento.

Preencheu os formulários disponíveis em registo eletrónico, ainda que nenhum campo fosse apropriado para a requisição de caixas. Felizmente – e o sistema está mais preocupado com as exceções que com resultados – que estes formulários estão sempre preparados para as mais aberrantes solicitações, e permitem, quase sempre, acomodar qualquer desvario no item “outros”.

Foi assim assinalando em “outros” que com carácter de urgência – nestas coisas dita a experiência que a espera está sempre garantida – pediu seis caixas de um m3 de cubicagem cada, algo que achava suficiente para armazenar o que se tinha extravasado.

A Drª. Isabelina tinha com estes formulários eletrónicos uma relação de algum afeto. Tempos antes, num Serviço que há 30 anos funcionava provisoriamente num pré-fabricado, não havia inverno que regularmente o chão não estivesse salpicado de baldes ou bacias para resguardar o espaço das infiltrações do teto que a cada ano se pareciam agravar. Não havia assim ano que a Drª Isabelina não preenchesse os formulários eletrónicos a solicitar a tão necessitada reparação e isolamento do telhado. Contudo, os anos sucediam-se, os invernos regularmente aconteciam e as infiltrações obrigavam a quem por ali circulasse aos devidos cuidados ou acabaria por esbarrar num balde ou, literalmente, a enfiar a “pata na poça”.

Cansada de pedir a reparação, ou que as instalações provisórias “ad eternum” não vissem uma terceira geração de funcionários – cansada disto tudo, e num inverno em que as próprias instalações elétricas estavam em risco, resolveu improvisar e pediu a instalação de um chafariz que aproveitasse aquele “pinguejar”, como “repuxos” vindos de cima, e com carpas multicoloridas dessem alegria e vida ao espaço. Seria uma espécie de fontanário onde os funcionários formulariam em preces o que o sistema tinha dificuldade em resolver e, numa lógica de “win-win”, maiores as necessidades e donativos maior o financiamento das próprias insuficiências!

De retorno teve como resposta que aquele tipo de sugestões deveria ser enviado para o Departamento de “Tretas e Embelezamento”. Afinal, também do outro lado havia quem tivesse humor!

Mas regressemos à caixa. Como disse, o pedido foi enviado para a Unidade de Compras e Aprovisionamento. Não demorou muito a obter uma resposta que, como de costume, veio codificada: “Item pretendido não se encontra disponível em stock. Sem verba prevista em orçamento no presente ano. O pedido deverá ser incluído no plano de actividades do próximo ano”. Aqui, o humor de outrora tinha perdido o rasto!

Estava-se na altura em fevereiro e pelo andar das coisas calculava que mais de um ano passaria até as caixas estarem disponíveis. Sem fé nas “internetices”, e para o sensibilizar da urgência, pôs os pés a caminho e foi falar com o responsável da Unidade de Compras e Armazenamento.

Como não tinham capacidade para adquirir as seis caixas de que necessitava? E se esta era a pergunta a fazer e a sua mais genuína indignação, rapidamente a esclareceram, ainda que sem a apaziguar, que todas as verbas orçamentadas eram utilizadas na aquisição de “serviços” dos tarefeiros do Serviço de Urgência. Enquanto o “prime time” das notícias se centrasse nos SU todas as verbas disponíveis eram canalizadas para esse efeito. Resumindo, para que o sistema funcionasse, e num cenário de manta curta, para se tapar uma ponta teria que se destapar uma outra, dito de outra forma, ou caixas ou tempos de espera no SU.

Resistente que era ao “esdrulicismo” institucional, remeteu o urgente pedido por via hierárquica, primeiro para o ministério da Saúde e mais tarde para a DE do SNS. Enquanto aguardava pelo desbloquear do que via como uma minudência, eis senão quando é contactada oficialmente pela DGS para ser integrada numa Comissão destinada a avaliar as necessidades nacionais de caixas pelos serviços de saúde. Que teria acontecido?

Segundo informação que recolheu junto da Presidente da referida Comissão, não havia histórico nos 47 anos do SNS de um pedido semelhante. Faltava um referencial que permitisse identificar as necessidades nacionais nesse tipo de equipamentos, pois suspeitava-se – e com adequado fundamento, acrescentaria eu – que situações idênticas pudessem ter ocorrido ainda que resolvidas, ou não, fora dos trâmites protocolares adequados. Era assim, por um lado necessário identificar as necessidades nacionais nas referidas caixas, mas, sendo a natureza dos materiais e possibilidades de cubicagem tão variadas, era também importante definir um algoritmo ou um fluxograma, ou ambos, que permitisse em cada pedido identificar as características mais adequadas a cada circunstância. Foi assim que, face às perspetivas de um trabalho hercúleo, a Comissão foi dividida em 10 grupos de trabalho cada um perspetivado para um aspeto particular do problema – formato do recetáculo, material de confeção, dimensões, durabilidade, et. cetera! No final a Comissão reuniria para se debruçar sobre preço, sustentabilidade, pegada de carbono e, a parte mais difícil, a elaboração de peças de contratação pública. A transparência teria de ser total! E para garantir uma lisura de procedimentos, pedir-se-ia a uma “qualquer” empresa que alguém sempre prontamente sugere, para identificar mais três ou quatro empresas do setor a consultar e a incluir na peça de contratação pública. Mais transparente que isto não podia ser! Se o processo resistisse a uma previsível e tempestiva investida do Tribunal de Contas, seria a cereja no topo do bolo deste processo administrativo. Era para isso que centenas de funcionários dedicam o seu sal – resistir ao teste do TC.

Volvidos dois anos, a Drª. Isabelina Barbosa já se reformou e quem a substituiu continua a dirigir um Serviço, agora com 33 anos de instalações provisórias, as mesmas infiltrações de água e com as embalagens de reagentes acondicionados no chão, a um canto, e à espera da disponibilização das “míticas” caixas.

Não apareceram as caixas, mas o processo teve bom andamento. Pelo que se sabe a nota de encomenda já ultrapassou as três peças de contratação pública e aguarda agora a sua fase final.

Entretanto mais de uma dezena de comissões e grupos de estudo foram criados e centenas de profissionais debruçaram-se o melhor que sabiam sobre o tema. A presidente da Comissão da DGS foi ouvida em Comissão Parlamentar e o assunto já foi tema de dois programas da manhã onde responsáveis da DGS, por entre uma receita de arroz de atum, explicaram à nação, como se de prole se tratasse, a importância e delicadeza do seu trabalho.

Decorridos todos os trâmites, validações e momentos de reflexão estratégica, as caixas mantinham-se em fase de concretização. Em contrapartida, o processo encontrava-se exemplarmente instruído, amplamente documentado e com um grau de maturidade que poucos poderiam questionar. A necessidade inicial, essa, tinha entretanto adquirido contornos mais abstratos. No terreno, a realidade permanecia simples: os reagentes continuavam onde tinham sido deixados e as caixas continuavam onde sempre estiveram – no plano das intenções. Ainda assim, havia um certo conforto em saber que, quando finalmente chegassem, tudo estaria preparado para as receber.

Nota: História ficcionada, ainda que verosímil. Episódio das carpas, esse não é ficcional. Aconteceu-me um dia!

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