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Democracia com adjectivos

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29.01.2026

Nos anos 90, no meio da euforia liberal, ainda antes de falarmos de erosão democrática, começou uma discussão académica sobre a existência de democracias com adjectivos – isto é, regimes políticos que precisam de um adjectivo como qualificador para serem descritos com rigor e, acima de tudo, para os conseguirmos distinguir das democracias liberais plenas. Esses adjectivos, tipicamente, caracterizam aspectos de enfraquecimento das democracias.

Lembrei-me do artigo de Collier e Levistky esta semana enquanto assistia ao grande debate que percorre a nossa sociedade sobre as implicações da segunda volta entre António José Seguro e André Ventura. A maioria das pessoas que apoia – de forma mais ou menos envergonhada – André Ventura parece conceber apenas o regime democrático como algo binário: democracia ou autocracia. Seria fastidiosa ter de rever a matéria dada sobre tudo isto. A democracia é, obviamente, uma escala, com democracias liberais com mais ou menos adjectivos.

Neste momento, não tenho qualquer receio em afirmar que a eleição de André Ventura para qualquer cargo colocaria (mais) adjectivos à frente da denominação de democracia para o sistema político português. Ao contrário do imaginário clássico dos golpes de Estado, as democracias contemporâneas “morrem por dentro”: a mudança é gradual, frequentemente legalista, e muitas vezes justificada por um discurso de reforma e regeneração, muitas vezes com laivos populistas. A linguagem utilizada por actores como André Ventura tende a ser atractiva:........

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