O imenso azar da Esquerda: de causa em causa até ao fim
O grande azar da Esquerda, ao longo do último século, foi ter perdido todas as suas causas. E é precisamente aí que reside a sua tragédia: a Esquerda nunca viveu de resultados, viveu sempre de causas. De matriz ideológica, ao contrário da Direita pragmática, a Esquerda construiu-se sobre narrativas de redenção, de transformação e de luta moral, tendendo a pensar o mundo a partir daquilo que deveria ser (igualdade, emancipação, justiça, etc.). A Direita parte do mundo como ele é, não pretende reinventar a sociedade, mas administrá-la: aceitar que há imperfeição, conflito e hierarquia — e procurar equilíbrio, não redenção.
A causa fundadora da Esquerda foi a luta de classes. Marx acreditava ter descoberto as leis da história, e talvez o tenha feito, mas só para provar que a história não obedece a leis. A luta entre capital e trabalho era o motor da mudança. Mas quando o século XX amadureceu, e o capitalismo ocidental produziu prosperidade, habitação, direitos laborais e segurança social, precisamente aquilo que o comunismo prometera, a grande causa perdeu força.
Nos Estados Unidos, o New Deal de Roosevelt (1933) e, na Europa, o Estado Social do pós-guerra, de matriz democrata-cristã, resolveram pela via do bem-estar o que Marx resolveria pela revolução. O inimigo venceu, e venceu dando pão, casa e férias pagas.
Por detrás da Cortina de Ferro, tentou-se manter viva a ilusão de que o bloco socialista representava o verdadeiro equilíbrio moral do mundo. Falava-se em “dívidas históricas” do Ocidente e em “justiças sociais” por cumprir.........
