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Crimes, percepções e inconveniências

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24.05.2026

Há, nos nossos tempos, uma nova figura de estilo que floresce nos salões mediáticos e nas cátedras  improvisadas dos comentadores de serviço: a “sensação de insegurança”. Não é a insegurança, note-se, essa  vulgar e plebeia realidade feita de assaltos, desacatos e inquietações nocturnas; mas a sua versão higienizada, quase estética, como se o medo tivesse passado a ser uma questão de gosto, um capricho emocional das  massas.

Dizem-nos, com ar compungido e sobrancelha erguida, que os portugueses não estão mais inseguros – apenas  se sentem assim. É um fenómeno curioso: a realidade permanece imaculada, mas o cidadão, esse ser falível,  insiste em percebê-la mal. Uma espécie de miopia colectiva, talvez, ou quem sabe uma súbita vocação nacional  para o dramatismo.

Ora, os números (esses ingratos, que teimam em nem sempre alinhar com a narrativa) mostram que a  criminalidade geral aumentou 8,3% em 2023, e a violenta 5,6% (RASI 2023). Em 2024, a criminalidade geral  diminuiu 4,6%, mas a criminalidade violenta e grave aumentou 2,6% (RASI 2024). Nada de particularmente  alarmante, dir-se-á. Apenas o suficiente para justificar que alguém feche a porta com mais cuidado ou olhe duas  vezes para trás ao atravessar a rua.

Mas isso, evidentemente, será apenas imaginação. No fundo, o debate tornou-se quase semântico: quando  certos sectores dizem “é apenas percepção”, esquecem-se de que a percepção social nasce frequentemente da  observação empírica do quotidiano. O cidadão não lê o RASI antes de decidir se evita uma........

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