À esquerda, há vida para além da Palestina?
Uma das críticas mais legítimas que se pode fazer à esquerda cultural internacional é o lugar desproporcional que a “causa palestiniana” ocupa no seu imaginário político. Com efeito, ser de “esquerda” — especialmente no quadro daquilo que chamo de esquerda imaterial, centrada nas lutas de identidade, reconhecimento e emancipação simbólica — parece exigir, em certos meios militantes, a adoção da gramática de uma “Palestina do rio ao mar”, expressão que, consoante o contexto e a intenção de quem a profere, pode traduzir uma rejeição da existência de Israel, bem como a relativização e, nas franjas, a glorificação do Hamas como reduto anticolonial. Mais do que uma manifestação de solidariedade internacional, esta centralidade revela uma hierarquização política das causas e dos sofrimentos considerados dignos de mobilização.
No plano da análise teórica, constata-se que a Palestina funciona como uma espécie de “causa total”, na qual convergem as gramáticas centrais da esquerda imaterial: anticolonialismo, anti-imperialismo, resistência à hegemonia ocidental, solidariedade com populações racializadas ou percebidas como subalternizadas, crítica ao nacionalismo étnico e denúncia das desigualdades globais. Esta capacidade de agregação ideológica explica por que motivo a causa palestiniana é lida como mais do que um conflito nacional, territorial e histórico entre israelitas e palestinianos e se torna uma chave de leitura da própria ordem ocidental. Não é apenas uma causa entre outras: é uma causa capaz de representar, ordenar e conferir unidade simbólica a muitas outras.
A centralidade adquirida pela Palestina no imaginário político da........
