A próxima crise não é tecnológica, é de controlo e confiança
Entramos em 2026 com uma contradição à flor da pele: nunca se falou tanto de inteligência artificial (IA) e, ainda assim, continuamos a adiar o debate que interessa. O jornal Diário de Notícias assinalou-o com uma clareza desconfortável: a implementação da IA vai acelerar, mas as medidas para reduzir impactos negativos seguem a um ritmo mais lento e esse desfasamento, por si só, já é uma escolha política, mesmo quando ninguém a assume.
O ano arranca, portanto, com uma pergunta que não é técnica. É social. Quem olha para 2026 como uma mera corrida a modelos mais “inteligentes” está a ver apenas a superfície. O que muda, agora, é a natureza do poder instalado nas redes digitais quando a IA deixa de ser um instrumento que responde e passa a ser um sistema que executa. A compra da Manus pela Meta, anunciada no fim de dezembro, é um sinal nítido dessa viragem: a Reuters descreve a intenção de integrar a tecnologia da Manus (apresentada como um “agente” capaz de tomar decisões e concluir tarefas com pouca orientação), nos produtos da Meta, incluindo a Meta AI, e de a operar também como serviço para consumidores e empresas.
Esta transição merece ser escrita devagar, porque é nela que reside a mudança de época. Durante anos, habituámo-nos a discutir redes sociais como praças públicas imperfeitas, dominadas por publicidade e por mecanismos de recomendação. Em 2026, o risco é outro: as mesmas plataformas podem tornar-se a camada operacional do quotidiano, onde não apenas se consome informação, mas onde se delega trabalho. A AP e a Euronews citam a própria Meta a prometer que a Manus irá entregar agentes de utilização geral nos produtos de consumo e de negócio, incluindo na Meta AI. O que era feed torna-se oficina; o que era atenção torna-se execução.
É aqui que o debate sobre emprego, sendo legítimo, fica curto. O sector bancário europeu oferece um retrato útil do que se aproxima: uma previsão de analistas da Morgan Stanley, citada pelo Irish Times, aponta para mais de 200 mil empregos “sob ameaça” até 2030, num cenário em que os bancos procuram poupanças através de IA, reforçam serviços digitais e fecham balcões. O mesmo texto quantifica a ordem de grandeza: um corte de 10% sobre cerca de 2,12 milhões de trabalhadores aproximar-se-ia de 212 mil postos. A leitura portuguesa, no ECO, vai no mesmo sentido e explicita as........
