A geopolítica de infraestruturas e o fim da inocência
Houve um tempo, que hoje nos parece quase ingénuo, em que acreditámos que o comércio era o antídoto definitivo para a guerra. Joseph Nye e Robert Keohane convenceram o mundo de que a Complex Interdependence (Interdependência Complexa) criaria uma rede de interesses tão apertada que o confronto entre países se tornaria irracional. A ideia era simples: se todos precisássemos uns dos outros para vender e comprar, ninguém teria interesse em disparar o primeiro tiro. A globalização seria, no fundo, a nossa paz perpétua. Mas o mundo de 2026 revela-se como o museu dessa ideia; percebemos, da pior maneira, que estar ligado a todos não nos protegeu, apenas mudou a natureza do conflito.
A armadilha da rede global
A rede global tornou-se uma armadilha. O que Abraham Newman e Henry Farrell batizaram como Weaponised Interdependence (Interdependência como Arma) é a realidade nua e crua dos nossos dias: as mesmas ligações que nos trazem energia ou tecnologia são agora usadas para nos pressionar. A China tem sido o principal ator a explorar estas assimetrias, transformando a dependência de outros países numa ferramenta de coerção política. A proximidade, afinal, não gerou apenas harmonia; gerou vulnerabilidades.
Neste cenário de despertar forçado, a União Europeia viu-se obrigada a redesenhar o seu lugar no mapa. A resposta veio com o Global Gateway — a estratégia europeia para........
