O erro não foi técnico: foi hierárquico
Estamos a passar tempos difíceis. Se por um lado alguns membros do governo vieram culpar os professores por erros dos serviços, por outro lado todos parecem empenhados em sacudir a água do capote, como se a responsabilidade fosse um objeto descartável. E agora, num volte‑face conveniente, anunciam que vão pagar aos professores classificadores, como se isso fosse uma novidade extraordinária. Mais uma vez, atirar dinheiro para cima do problema é pagar para ter alguém para culpar. A verdade é simples: quem classifica exames nunca foi pago para o fazer em dez dias úteis, tendo de corrigir cerca de 800 itens, inserir tudo em Excel e cumprir prazos apertados, e nunca se queixou. Os professores classificadores não devem trabalhar ao fim de semana, não devem passar mais de oito horas ao computador, faz mal à saúde e devem ter formação adequada. A tentativa de transformar o pagamento numa espécie de gesto generoso é apenas mais uma forma de desviar atenções da falha estrutural que esteve na origem de tudo.
A isto junta‑se um facto ainda mais grave: ninguém teve coragem de dizer ao Ministro e aos Secretários de Estado que o modelo idealizado por eles não era funcional, nem operacional, nem tecnicamente exequível. A cadeia hierárquica preferiu alinhar no entusiasmo político da “modernização” e da transição digital, uma bandeira dos tempos modernos, em vez de assumir a realidade concreta das escolas, das plataformas, das competências e dos tempos humanos. A transição........
