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A engrenagem

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03.02.2025

Hoje estive com uma pessoa que, a pretexto duma dúvida que tinha sobre si própria, me dizia que não conseguia esclarecer se a sua sensibilidade não seria, só, uma questão de imaturidade. Acresce que esta pessoa tem uma sensibilidade educadíssima. Própria de quem teve o privilégio duma relação intima e sábia com a sua mãe. Que o tornou atento e intuitivo. Capaz de ler expressões simples, reacções e comportamentos. Ou de pensar de forma intimista sobre as coisas, por exemplo.

Perguntava-me esta pessoa se, considerando a enorme equipa com quem trabalha, a sua sensibilidade não seria uma espécie de ruído excessivo que prejudicaria a relação com a sua empresa. Sobretudo quando sentia que a comunicação, a gestão dos recursos humanos ou a própria produção não deixava de estar inquinada por uma engrenagem que fazia com que muitas decisões fossem tão absurdas, tão mentirosas, tão pouco inteligentes e tão caras que se tornava constrangedor, para ele, que tudo se passasse diante dum conformismo generalizado. Sendo que ele sentia que muitos mais, nessa cadeia de pessoas, reconheciam a insensatez de inúmeros actos, de “verdades vendidas” e de processos ínvios de avaliação. Mas é como se nada daquilo lhes dissesse respeito. Porque, até aquele momento, a engrenagem ainda não tinha chocado com a maioria deles. Se bem que, dizia-me ele (como quem falava dum monstro desgovernado que iria elegendo uma a uma as vítimas), todos soubessem que esse choque com ela acabaria por ser só uma questão de tempo.

Ao falar com ele, recordei-me de um dos meus muitos mal estares. Este, relacionado com a “idade dos porquês”. Que só acontece quando, ali mais ou menos pelos 4, em consequência duma mielinização mais aprofundada que se dá no cérebro das crianças, elas pegam na sua sensibilidade e a relacionam com mais informação, como se passassem a ter um algoritmo muito mais versátil e mais capaz dentro delas, e, a pretexto de tudo e de nada, perguntassem, de forma incansável: “Porquê?”. É........

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