menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A Democracia sem Anestesia

15 0
saturday

A democracia contemporânea padece de uma doença terminal que não nasce dos seus inimigos declarados, mas da sua própria sacralização. Nas últimas décadas, assistimos à transmutação insidiosa do espaço público: aquilo que foi concebido como uma tecnologia política contingente, uma engrenagem fria destinada a gerir o atrito brutal entre os homens, foi convertido numa liturgia moral. A democracia deixou de ser um método mecânico de sobrevivência para se transformar numa religião laica de contornos sentimentais. Exige-se hoje do cidadão muito mais do que o mero cumprimento da lei; exige-se-lhe um ato de fé contínuo, uma declaração permanente de empatia e uma devoção absoluta ao dogma do consenso.

O erro capital do nosso tempo reside na tentativa de formatar a sociedade como um conto de fadas pedagógico. Sob esta ótica adocicada, a política seria um grande salão civilizacional onde todas as arestas são polidas pela linguagem da virtude. O Estado moderno e as suas instituições satélites (as fundações, a academia, o mercado editorial) já não se contentam com o monopólio da violência; reclamam, com uma ferocidade dissimulada, o monopólio do afeto. A máquina institucional quer ser amada. Quer que o indivíduo se comova com as narrativas oficiais e participe ativamente numa feira de vaidades onde o bom-mocismo cívico atua como a única moeda autorizada.

Ao moralizar a engrenagem, o sistema oblitera a realidade do osso. É aqui que opera a violência mais sofisticada do presente: a tirania do diagnóstico. Aquele que recusa o coro da unanimidade, que rejeita o otimismo de plástico das comemorações de Estado ou que aponta para a degradação estrutural do edifício comum, deixa de ser encarado como um interlocutor. Perde o estatuto de voz divergente para assumir o papel de doente.

O sistema deixou de debater; passou a diagnosticar. Se não alinhas na pedagogia imposta a partir dos palanques e dos pavilhões literários, a tua recusa é lida através de uma grelha clínica: és o cínico, o ressentido, o radical. O aparelho de Estado assumiu a função de Psicanalista Nacional, utilizando a compaixão como........

© Observador