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A manada

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08.09.2026

No conjunto de ensaios inacabados e postumamente publicados sob o título “Contre Sainte-Beuve”, Marcel Proust levou a cabo a demolição do aparelho crítico de Charles-Augustin Sainte-Beuve. Sainte-Beuve defendia a ideia de que para compreender uma obra é preciso interrogar o homem: o que pensa em matéria de religião, como se comporta com as mulheres, que uso faz do dinheiro, que vícios alimenta, o que dizem dele os amigos, o que se sabe pela família, pelos criados. Para Sainte-Beuve, a obra é um “sintoma” da biografia: quem melhor conhecer a biografia melhor lerá a obra. Proust recusou a ideia de que a vida de um autor pudesse servir de chave para a sua obra. Salvo quando a vida é o próprio assunto do livro (Levi, Soljenítsin, p. ex.), estava certo. O método de Sainte-Beuve escolhia, com uma estupidez exemplar, o material errado: acumulava tudo o que se pudesse saber da biografia para explicar a obra. Não por acaso, o seu positivismo errou em toda a linha: fê-lo execrar ou desvalorizar Stendhal, Baudelaire e Balzac, entre outros.

O livro do historiador Paul Johnson Intellectuals percorre a vida privada de uma dúzia de grandes nomes para a devolver em ruínas: Rousseau a entregar os cinco filhos à roda dos expostos depois de ter ensinado meio continente a educar crianças, Marx a viver do dinheiro de Engels, Tolstói a pregar a santidade do camponês do alto da sua herdade. E por aí fora. O passo seguinte dá-se sozinho: se este é o homem, o que valem os seus livros? A resposta: exactamente o que valiam antes. O Contrato Social não fica pior por causa da roda dos expostos, Guerra e Paz não encolhe um milímetro por Tolstói ter sido insuportável em casa. Um bom livro – ou o talento em geral – não é um atestado de bom comportamento do autor, e o leitor que exigir das obras que os seus autores tenham sido boas pessoas, bons amigos, bons maridos e simpatizantes do partido certo vai acabar com uma estante ou muito curta ou muito aborrecida. Quem se oferece como mestre de vida talvez responda pela vida que leva. Mas quem apenas escreve, compõe ou faz rir, apenas deve responder pelo talento demonstrado na sua arte.

Lembrei-me disto a propósito de Jerry Seinfeld, presença confirmada no festival Commedia a La Carte Fest, e da anunciada vaga de desistências.

Jerry Seinfeld nasceu a 29 de Abril de 1954, em Brooklyn, Nova Iorque, e subiu pela primeira vez a um palco em 1976, poucos meses depois de sair da universidade. Fez a estreia decisiva na televisão em Maio de 1981, no Tonight Show de Johnny Carson, e desde então nunca deixou de actuar. Entre 1989 e 1998 criou e escreveu, com Larry David, a série que é ainda considerada por muitos a melhor sitcom alguma vez feita. Terminada a série no auge (recordemos o dislate de Larry King), regressou ao circuito e recomeçou do zero. É o tipo de obsessão artesanal que define na perfeição o humor seinfeldiano, feito da observação minuciosa do trivial: a fila, o guardanapo, o telefonema que não se sabe terminar, o efeito de encantamento das televendas, o odor corporal. Meio século de carreira sem que a política alguma vez lhe tenha servido de matéria.

Reconheço: o argumento da autonomia da obra (voltando a Proust) funciona bem para obras literárias, mas não tão bem no caso do stand-up. O stand-up é executado pela pessoa, em nome próprio, com a sua cara e o seu nome no cartaz. A persona não é uma máscara: é, por norma, o próprio. Mas há um ponto que........

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