ML, S.A.
Em 1975, no fervor litúrgico do Processo Revolucionário em Curso, M-L queria dizer Marxismo-Leninismo. A sigla circulava com a autoridade das fórmulas sagradas e a elasticidade das sociedades comerciais. Havia M-Ls para todos os gostos: cisões, tendências, frentes, comités, uniões, reconstruções e reconstituições.
Havia a FEC (M-L), Frente Eleitoral de Comunistas Marxistas-Leninistas. Havia o PCP (M-L), ou PC de P (M-L), Partido Comunista de Portugal Marxista-Leninista. Havia o CMLP, Comité Marxista-Leninista Português. Havia a OCMLP, Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa. Havia a ORPC (M-L), Organização para a Reconstrução ou Reconstituição do Partido Comunista Marxista-Leninista. Havia o CARP (M-L), Comité de Apoio à Reconstrução do Partido Marxista-Leninista. Havia os CCR (M-L), Comités Comunistas Revolucionários Marxistas-Leninistas. Havia a URML, Unidade Revolucionária Marxista-Leninista. Havia a UCRP (M-L), União Comunista para a Reconstituição do Partido Marxista-Leninista. Havia ainda a UCML, União Comunista Marxista-Leninista.
Dependendo do critério, contavam-se oito, nove, dez organismos. Partidos, frentes, comités, uniões. Reconstruções, reconstituições, apoios à reconstrução da reconstituição. Portugal não tinha apenas M-L. Tinha uma sociedade por quotas de M-Ls.
O país era pobre, a política era febril, as siglas eram inesgotáveis. Cada pequeno grupo descobria que a revolução precisava de mais uma rutura, mais uma pureza, mais uma comissão central e, se possível, mais uma sede com cartazes à porta. Uns reconstruíam o partido. Outros reconstituíam-no. Outros apoiavam quem o reconstruía para melhor o reconstituir.
Tudo em nome do povo, naturalmente. O povo, esse, tinha menos tempo para a metafísica das cisões. Tinha de trabalhar, apanhar transportes, estacionar onde pudesse, e sobreviver à gramática revolucionária.
Uma das teses clássicas do Marxismo-Leninismo era a nacionalização dos meios de produção. As empresas deveriam pertencer ao Estado. A propriedade privada era suspeita; o mercado, uma perversão; o lucro, uma excrescência burguesa; o cidadão, uma criatura a conduzir pedagogicamente para a luz.
Cinquenta anos depois, Lisboa encontrou uma fórmula mais prática, menos ideológica e bastante mais rentável de Marxismo-Leninismo Municipal. Não nacionalizou os meios de produção. Nacionalizou os meios de estacionamento.
A nova ML, S.A. chama-se EMEL.
A operação tem uma elegância burocrática quase perfeita. O que antes era livre, ou pelo menos não diretamente tarifado, passou a ser regulado, zonado, fiscalizado, concessionado, digitalizado e cobrado. O lugar de estacionamento, existente na rua pública........
