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Algoritmos, instituições e governação democrática (II)

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08.03.2026

Na última década é muito curioso verificar a sequência da atribuição dos prémios Nobel de Economia e os temas aí contemplados. De facto, podemos dizer, sem grande margem de erro, que a corrente institucionalista ou, mais propriamente, neo-institucionalista fez aí ganho de causa. Vejamos, então, essa sequência: consumo, pobreza e bem-estar (2015), teoria dos contratos (2016), economia comportamental (2017), mudanças climáticas, inovação e crescimento (2018), aliviar a pobreza global (2019), teoria dos leilões (2020), economia do trabalho (2021), bancos e crises financeiras (2022), o papel das mulheres nos mercados de trabalho (2023), as instituições e a prosperidade das nações (2024), crescimento económico e inovação disruptiva (2025). Esta sequência vai ao encontro dos efeitos da disrupção tecno-digital e o risco de desinstitucionalização das humanidades induzido pelos processos de digitalização, automação e artificialização. As questões essenciais são, agora, as seguintes: como ficam as instituições convencionais no interior dos fluxos tecno-digitais (1), qual é a relação de poder no quadro dos dispositivos tecno-digitais (2), como fica a nossa capacidade relacional neste ambiente desmaterializado (3), quais as novas características da economia comportamental (4), como é que a política pública e a governação democrática se adaptam a esta nova circunstância (5)? Este conjunto de questões interroga a função cognitiva e epistemológica das ciências humanas e sociais (CHS) confrontada com esta nova aliança entre os algoritmos, a inteligência artificial e as instituições e o seu impacto sobre a governação democrática. Seguem-se algumas reflexões a propósito.

Vivemos, com efeito, uma mudança paradigmática nas ciências humanas e sociais (CHS). Digamos que a gordura concetual e epistemológica anterior das CHS está a ser substituída por um forte dispositivo tecno-digital, baseado na ciência dos dados, na programação algorítmica e numa bateria de aplicativos prontos a usar em quase todos os campos e onde também já participa a inteligência artificial (IA). Ou seja, estamos, progressivamente, a assistir a uma espécie de reprogramação das mentes, à substituição do pensamento complexo, narrativo e dialético da inteligência humana por um pensamento binário, descomplexo, automático e maquinista de uma inteligência artificial geral e específica que combina muito bem com o protocolo algorítmico. Digamos que os conceitos que estruturaram o nosso pensamento durante tanto tempo passaram rapidamente do estado sólido ao estado líquido e, agora, por via do aquecimento global e da revolução tecno-digital evaporaram-se completamente para a nuvem e o ciberespaço. É aqui que nos encontramos hoje, no cloud capitalismo, na sociedade algorítmica, nos large language models (LLM) da IA, num estado informativo vertiginoso e em profunda confusão cognitiva e intelectual. Como já afirmei em outros escritos, esta mudança........

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