O século que nos prometeram
Todas as noites, de segunda a sexta-feira, entre as 23 e as seis da manhã, Jim Maroon aspira as grandes fontes do memorial ao 11 de Setembro. Quem quer que tenha visitado Nova Iorque nos últimos 15 anos conhece a imponência, diremos, negativa, do monumento: dois buracos negros escavados no coração de uma das cidades com metro quadrado mais caro do planeta, exactamente no lugar e da área das torres que lá estavam, dois quadrados com 58 metros e meio de lado cada, rasgados numa queda abrupta de nove metros a partir da rua, abrindo-se num segundo quadrado negro ao centro, com mais seis metros de profundidade, cujo fundo se torna absolutamente impossível de avistar ao nível do olhar humano. Noite e dia, a água das fontes escorre pelas paredes de granito negro, desaparecendo-se nesse coração quadrado e negro sem fundo, como uma ferida que nunca estancará. À superfície, o varandim em volta, onde se apoiam os turistas ou simples transeuntes para dar aos pés um minuto de descanso das longas avenidas de Manhattan, recorda os nomes dos quase 3000 mortos no ataque que inaugurou, verdadeiramente, o século XXI.
O que deveríamos esperar dum tempo nascido sob semelhante auspício?
O senhor Maroon, conta-nos esta semana o New York Times em fotorreportagem, é o inesperado responsável quase solitário pela limpeza daquele lugar, um dos mais visitados da Big Apple. Onde se poderia imaginar um exército de funcionários de uma empresa de limpeza ciclicamente contratada para substituir a anterior por quebra na qualidade de serviço ou proposta mais vantajosa, existe na verdade um só homem quase desde o dia da inauguração, acompanhado de dois colegas: um que varre o chão depois de ele passar com o aspirador e outro que opera a bomba do dito. Ninguém o substitui ao fim-de-semana ou nas férias. É, escreve o NYT, um........
