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A lusitana arte do prompt

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26.02.2026

Sim, precisamos de falar sobre o prompt. Não se faça desentendido. Algum dia, teria de ser. Eu sei que sabe que eu sei que você sabe. Também já deu um prompt – quem não deu? Bem dado, mal dado, isso vamos já ver a seguir. A questão, para já, é: temos de conversar acerca do prompt na sala.

O prompt, para os mais distraídos ou sonsos, é não apenas o mais bem-sucedido e recente caso de colonização anglófila por abdicação dos falantes de português, mas toda uma nova dimensão. O prompt, ao que parece, é agora toda uma arte, porventura marcial. Há ninjas do prompt, cinturões negros do prompt, cursos para aprender a dar prompts, a dominar a ciência oculta do prompt, a ser mestres samurai do prompt.

Mas afinal o que é o prompt?, grita de lá de trás o infoexcluído mais impaciente, distinguindo-se assim inapelavelmente do sonso que andou estas linhas a fingir que não sabia. Pois, o prompt é um termo que adquire funções ligeiramente diferentes na língua inglesa consoante o lugar que ocupa na frase. Enquanto verbo, deixa-se ler como “causar”, “provocar”, “instigar”, “precipitar”, “desencadear”; enquanto substantivo, é o encorajamento, a dica, até o “empurrãozinho”; enquanto adjectivo, fica-se pelo “pronto”, o que é “rápido”, “imediato”, “pontual”, “instantâneo”, “expedito”.

O prompt é, portanto, uma palavra muito antiga que os profissionais da comunicação conhecem há muito na fórmula composta “teleprompter”, que significa, de Vilar Formoso para cá, “teleponto” – a actualização tecnológica para audiovisual do senhor ou senhora que, num cantinho do teatro, soprava aos actores em branca o texto de que se tinham esquecido.

Mas o que o prompt é hoje, aquilo que o trouxe enfim a esta inesperada ribalta, foi a inefável, a incontornável, inteligência artificial. Sim, o prompt, como o neto está a tentar dizer ao avô desde o início desta crónica, é a instrução que damos ao ChatGPT, ao Gemini, ao Dall-E ou grande modelo de linguagem afim, para que faça aquilo que queremos. É a indicação, o pedido, a ordem. Como quem vai a um restaurante e pede um bifinho desta ou daquela parte do bicho, bem, mal, médio ou muito bem ou muito mal passado, com arroz ou batata ou saladinha à parte, molho disto ou daqueloutro, mas por favor sem pimenta-que-sou-alérgico, e com pão escuro, de sementes, e nem me façam começar a falar da água e dos vinhos.

Bom, isto faz de nós cozinheiros? Chefs? Não consta. Há um chef, um cozinheiro ou mesmo um batalhão deles, na cozinha, que vai fazer o meu prato. Mas, no radioso mundo da inteligência artificial, como não vejo mais ninguém na sala nem oiço tachos e panelas a vir do interior do computador, convenço-me de que fui mesmo eu quem fez aquilo.

O prompt é, portanto, a tábua de salvação da humanidade. A réstia possível de centelha divina. Agarramo-nos a ele como a última esperança antes de sermos dispensados da existência, esmagados pelos robôs. “A IA não faz tudo sozinha”, garantimos; “tudo depende do prompt!”

O prompt é, portanto, o novo “fazer praia”. É a recusa em aceitar o facto de não estarmos a fazer absolutamente nada. Há anos que ninguém vai à praia, está na praia, se limita a respirar e existir na praia, debaixo do Sol, bebericando um mojito e, de vez em quando, pondo um pé de molho. Não. Em Portugal, nós “fazemos” praia. We make beach. É um gesto activo, uma obra, uma benfeitoria. Sem nós, todo aquele mar e areal, porventura “feitos” pelo Criador, não seriam a mesma coisa.

Assim sucede com a inteligência artificial. Que seria da OpenAI ou da Google sem nós? Aquilo chega tudo igual, sem alma, repetitivo e inodoro; porém, nas nossas mãos, adquire magia. “A mim não me vão tirar o trabalho porque sou muitabom nos prompts.”

O prompt é o segredo, o truque – e não há português que resista a um truque. Venha o admirável novo mundo que eu dou conta dele. O prompt é a oportunidade perfeita para pôr em prática a mais secular das nossas artes: a conversa. A lábia. O jeitinho. Há uns que acham que é preciso falar com a máquina mais docemente, com falinhas mansas, outros mostrar-lhe quem manda, negociar, seduzir, fazer amizade, ser diplomático, piscar o olho. Em breve, vamos pôr o ChatGPT a chorar connosco numa casa de fados e a suspirar de saudades pelo ZX Spectrum, vão ver.

O prompt é a negação da nossa preguiça ancestral. Os outros países desenvolvem a tecnologia; nós usamo-la e ficamos convencidos de que andamos todos a “trabalhar em AI”. É a brecha por onde entramos no sistema e o domamos. Como se fosse um carro ou uma mota. “Deixa cá ver o que é que tens aí… O Perplexity Pro? Ui. Ias ver o que isso dava nas minhas mãozinhas…” Chega a ser sexual. Está mesmo ali a jeito para o velho macho lusitano. “Havias de ver o prompt que eu lhe dei! “Ui, aquela. Se lhe ponho as mãos em cima, dou-lhe cá um prompt…” “Anda cá que eu já te conto. Era toda a noite a dar prompts até criar a cura para o cancro!”

O prompt justifica-me. Deixa-me dormir à noite confortado pela sensação de ainda haver um espaço para a minha assinatura. A máquina pode ser do Elon Musk, mas está adaptada “à minha maneira”, responde à “voz do dono”. É o tuning do carro, a marquise no prédio de arquitecto, o sonho do artolas, convencido de ter enfim ali à mão o faça-você-mesmo universal.

Só que não. É a máquina que está a fazer. Afinal, a arte do prompt é uma coisa tão difícil, tão sofisticada, tão autoral, que também sobre ela podemos perguntar à inteligência artificial. “Gemini, qual a melhor maneira de te dar um prompt?” E ele responde. Com exemplos:

“1. Para Criar Conteúdo (Ex: Post para Redes Sociais): ‘Atue como um especialista em marketing digital. Escreva um post de Instagram engajador sobre os benefícios de usar ferramentas de IA no trabalho diário. Use um tom profissional mas acessível, inclua emojis e hashtags relevantes.’

“2. Para Aprender Algo Novo (Ex: Resumo): ‘Explique o conceito de ‘Computação Quântica’ para um iniciante, usando uma analogia simples. Limite a resposta a 3 parágrafos.’

“3. Para Programação/Técnico: ‘Escreva um script em Python que leia um arquivo CSV chamado ‘dados.csv’ e calcule a média da coluna ‘Vendas’. Adicione comentários explicando o código.’”

E conclui, oferecendo a cortesia da fórmula: “Dica: Para obter o melhor resultado, use a estrutura: [Persona] + [Tarefa] + [Contexto/Detalhes] + [Formato da Resposta].” Com este requinte derradeiro: “Diga-me o objetivo e eu crio o prompt perfeito para você.”

Ou seja, podemos até pedir à IA que nos dê o prompt perfeito para lhe darmos de volta. E ficarmos contentes com isso. Fomos nós que lhe pedimos, hã? Não façam confusão! Fomos fundamentais! Eu queria vê-la a saber o que eu queria se eu não lhe tivesse perguntado, à minha maneira, o que é que eu lhe devia pedir!

O prompt é a nossa oportunidade de colonizar o mundo outra vez. A peça perfeita para a não inscrição portuguesa de que fala José Gil. Mais um passo decisivo em direcção ao nosso apagamento, total e completo, da História. Foi inventado lá longe, mas cai-nos tão bem. Qual bacalhau. Rumo à infinita arte de não saber fazer nada (e quem melhor do que nós para a poetizar?).

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