A lusitana arte do prompt
Sim, precisamos de falar sobre o prompt. Não se faça desentendido. Algum dia, teria de ser. Eu sei que sabe que eu sei que você sabe. Também já deu um prompt – quem não deu? Bem dado, mal dado, isso vamos já ver a seguir. A questão, para já, é: temos de conversar acerca do prompt na sala.
O prompt, para os mais distraídos ou sonsos, é não apenas o mais bem-sucedido e recente caso de colonização anglófila por abdicação dos falantes de português, mas toda uma nova dimensão. O prompt, ao que parece, é agora toda uma arte, porventura marcial. Há ninjas do prompt, cinturões negros do prompt, cursos para aprender a dar prompts, a dominar a ciência oculta do prompt, a ser mestres samurai do prompt.
Mas afinal o que é o prompt?, grita de lá de trás o infoexcluído mais impaciente, distinguindo-se assim inapelavelmente do sonso que andou estas linhas a fingir que não sabia. Pois, o prompt é um termo que adquire funções ligeiramente diferentes na língua inglesa consoante o lugar que ocupa na frase. Enquanto verbo, deixa-se ler como “causar”, “provocar”, “instigar”, “precipitar”, “desencadear”; enquanto substantivo, é o encorajamento, a dica, até o “empurrãozinho”; enquanto adjectivo, fica-se pelo “pronto”, o que é “rápido”, “imediato”, “pontual”, “instantâneo”, “expedito”.
O prompt é, portanto, uma palavra muito antiga que os profissionais da comunicação conhecem há muito na fórmula composta “teleprompter”, que significa, de Vilar Formoso para cá, “teleponto” – a actualização tecnológica para audiovisual do senhor ou senhora que, num cantinho do teatro, soprava aos actores em branca o texto de que se tinham esquecido.
Mas o que o prompt é hoje, aquilo que o trouxe enfim a esta inesperada ribalta, foi a inefável, a incontornável, inteligência artificial.........
