Uma reforma chumbada, uma vergonha por explicar
Há décadas que Portugal carrega um paradoxo incómodo. Tem uma das legislações laborais formalmente mais rígidas da Europa e, ao mesmo tempo, um dos mercados de trabalho mais segmentados, com salários entre os mais baixos da União Europeia e uma produtividade que teima em não convergir com a média dos seus parceiros. A rigidez nunca protegeu ninguém. Fragmentou o mercado entre quem já estava dentro e quem ficou de fora, deixando contratos sem fim para uns e precariedade endémica para outros, sobretudo jovens e mulheres. E, sexta-feira passada, este país teve a oportunidade de mudar isso. Desperdiçou-a.
Porque foi isto que aconteceu, e convém dizê-lo sem rodeios. A reforma “Trabalho XXI”, que nasceu de nove meses de negociação na Concertação Social, cinquenta e oito reuniões, mais de duzentas horas de trabalho, foi chumbada no Parlamento. Votaram a favor apenas o PSD, o CDS-PP e a Iniciativa Liberal. Contra, ficaram o Chega e toda a esquerda parlamentar, PS, Livre, PCP, Bloco de Esquerda, PAN e JPP. As galerias aplaudiram. Houve lágrimas. Houve quem tivesse de ser mandado sair por não se calar. E ninguém, a sério, ninguém, devia estar satisfeito com este desfecho.
Vejam bem o absurdo desta comédia. Na quinta-feira, André Ventura subia à tribuna a reclamar para si os louros de uma “vitória histórica para os trabalhadores”, garantindo que seria o Chega a explicar aos portugueses quem lhes conseguiu mais dias de férias, quem corrigiu o erro na amamentação, quem assegurou o pagamento do trabalho por turnos a um milhão de pessoas. Vinte e quatro horas depois, vota contra. Porquê? Porque o PSD não cedeu na idade da reforma nem no travão ao outsourcing. É a isto que chamam coerência política? Um........
