O Estado é deles, o povo é que paga
Temos assistido, um pouco por todo o mundo ocidental, a um fenómeno curioso, mas previsível, a incapacidade crónica dos partidos do sistema, sejam eles de que quadrante forem, em aceitar a erosão da sua própria credibilidade e em fazer uma autocrítica séria sobre o que fizeram, ou deixaram de fazer, com o poder que lhes foi confiado. Olhemos para a Argentina, para a Itália, para a França, para os Países Baixos. Nestes países, as populações, exaustas de estagnação económica e de promessas falhadas, foram procurar noutro lado o que os partidos tradicionais deixaram de lhes dar. E o que fazem, em resposta, os partidos que sempre governaram? Em vez de perguntarem onde falharam, preferem rotular o voto popular de erro, de ignorância ou de perigo para a democracia.
Este texto não é sobre esquerda contra direita. É sobre um paradigma que atravessa todo o espectro partidário. O de organizações que se habituaram a tratar o Estado como território próprio, umas por conivência ativa, outras por puro absentismo, por não fiscalizarem, não perguntarem, não quererem saber, outras ainda porque estiveram no poder e usaram-no para proteger os seus. Não há bancada parlamentar em Portugal que possa, com a mão no coração, dizer que está imune a este diagnóstico.
Em Portugal, o exemplo mais recente e mais desconfortável para quem gosta de arrumar a política em compartimentos ideológicos é o caso do ministro da Administração Interna, Luís Neves. Nomeado em fevereiro de 2026 pelo governo da Aliança Democrática, depois de mais de uma década à frente da Polícia Judiciária, Luís Neves tornou-se, ironicamente, protagonista de um dos episódios mais desgastantes do atual executivo. Foi noticiado que a empresa........
