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O espelho partido dos partidos tradicionais

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26.04.2026

Na cidade da Praia, Cabo Verde, Hugo Soares disse em voz alta aquilo que muitos dirigentes do PSD dizem em privado. Quem saiu do partido para o Chega “nunca teve espaço por falta de qualidade”. A frase é curta, limpa e conveniente. Serve para separar os que ficaram dos que saíram. Uns ficam do lado dos bons. Os outros passam para o lado dos fracos, dos ressentidos, dos incapazes. Mas, dita em Cabo Verde, numa conferência sobre democracia, a frase deixa de soar a desabafo e passa a soar a doutrina. Fica a ideia de que há gente que merece ter lugar no sistema e gente que não merece.

Hugo Soares acrescentou outra tese. O populismo combate-se governando bem e pagando melhor aos políticos. Segundo ele, os políticos são hoje mal pagos, e só salários mais altos atrairiam os melhores. É uma ideia antiga. A política como mercado de talentos. Como se o problema principal estivesse na folha salarial e não nos mecanismos de escolha, nas redes de favores ou nos aparelhos partidários.

A questão não é saber se há quadros fracos que saem dos partidos para o populismo. Há. Tal como há quadros fracos que ficam nos partidos tradicionais e fazem carreira por fidelidade, não por mérito. O ponto é outro. Quem decide o que é qualidade dentro de partidos que funcionam como máquinas fechadas? Quem escolhe listas, nomeações e carreiras dentro de círculos pequenos e pouco visíveis?

O processo Tutti Frutti é a expressão judicial dessa doença. Durante anos, em Lisboa, PS e PSD terão montado um sistema de favorecimento de militantes e amigos, através de avenças e contratos públicos. Há suspeitas de corrupção, tráfico de influência, participação económica em negócio e financiamento partidário ilícito. O Ministério Público acabou por acusar 60 arguidos, entre autarcas, dirigentes partidários, militantes e empresários. Fala-se em centenas de crimes de corrupção ativa e passiva, prevaricação, branqueamento e abuso de poder. Não foi um caso isolado. Foi a face judicial de uma cultura de listas feitas em gabinetes.

Quando se lê a acusação e a........

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