O espelho partido dos partidos tradicionais
Na cidade da Praia, Cabo Verde, Hugo Soares disse em voz alta aquilo que muitos dirigentes do PSD dizem em privado. Quem saiu do partido para o Chega “nunca teve espaço por falta de qualidade”. A frase é curta, limpa e conveniente. Serve para separar os que ficaram dos que saíram. Uns ficam do lado dos bons. Os outros passam para o lado dos fracos, dos ressentidos, dos incapazes. Mas, dita em Cabo Verde, numa conferência sobre democracia, a frase deixa de soar a desabafo e passa a soar a doutrina. Fica a ideia de que há gente que merece ter lugar no sistema e gente que não merece.
Hugo Soares acrescentou outra tese. O populismo combate-se governando bem e pagando melhor aos políticos. Segundo ele, os políticos são hoje mal pagos, e só salários mais altos atrairiam os melhores. É uma ideia antiga. A política como mercado de talentos. Como se o problema principal estivesse na folha salarial e não nos mecanismos de escolha, nas redes de favores ou nos aparelhos partidários.
A questão não é saber se há quadros fracos que saem dos partidos para o populismo. Há. Tal como há quadros fracos que ficam nos partidos tradicionais e fazem carreira por fidelidade, não por mérito. O ponto é outro. Quem decide o que é qualidade dentro de partidos que funcionam como máquinas fechadas? Quem escolhe listas, nomeações e carreiras dentro de círculos pequenos e pouco visíveis?
O processo Tutti Frutti é a expressão judicial dessa doença. Durante anos, em Lisboa, PS e PSD terão montado um sistema de favorecimento de militantes e amigos, através de avenças e contratos públicos. Há suspeitas de corrupção, tráfico de influência, participação económica em negócio e financiamento partidário ilícito. O Ministério Público acabou por acusar 60 arguidos, entre autarcas, dirigentes partidários, militantes e empresários. Fala-se em centenas de crimes de corrupção ativa e passiva, prevaricação, branqueamento e abuso de poder. Não foi um caso isolado. Foi a face judicial de uma cultura de listas feitas em gabinetes.
Quando se lê a acusação e a........
