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Qual futuro queremos para o Carnaval de BH?

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21.02.2026

O Carnaval de Belo Horizonte foi lindo. A cidade cheia, gente ocupando as ruas, trabalhadores gerando renda, turistas descobrindo nossa cultura. Estive nas ruas, no meio do povo, acompanhei blocos, conversei com ambulantes, senti a energia que faz do nosso Carnaval um dos mais potentes do país.O Carnaval movimenta a economia, fortalece serviços e projeta a cidade nacionalmente. A prefeitura investe milhões, e o retorno chega à casa dos bilhões. Isso importa. Mas a festa nunca foi só um indicador econômico.Desde as origens, o Carnaval é espaço de disputa. Já foi reprimido, disciplinado. E foram as comunidades negras que, perseguidas, sustentaram a celebração, criaram linguagens, consolidaram blocos e escolas de samba. A cultura negra é a matriz do Carnaval.

Hoje, a tensão não é mais a proibição explícita. É o modelo. Nos últimos anos, grandes shows passaram a ocupar o espaço da festa como se fossem o Carnaval. Artistas de alcance nacional se cadastram como “blocos”, mas operam com estrutura de festival: palcos gigantes, patrocinadores de peso e forte aparato de mídia. Esses grandes espetáculos, mesmo quando não recebem cachê do poder público, usufruem da infraestrutura financiada pela cidade: operação da BHTrans, segurança de PM e Guarda Municipal, banheiros químicos, interdições, logística urbana. Isso é investimento público indireto. E tem custo alto.

Enquanto isso, mais de 500 blocos, que fizeram BH se tornar o terceiro maior Carnaval do Brasil, enfrentam incerteza, dificuldade de captação, redução de visibilidade e deslocamento para circuitos menos centrais. Há um esvaziamento silencioso. É sempre importante lembrar que o Carnaval de BH voltou não por causa de grandes estrelas. Ele renasceu quando não havia grandes patrocinadores nem estruturas milionárias. Voltou pelas mãos de coletivos culturais, blocos independentes, artistas locais, juventude periférica e negra que decidiu ocupar as ruas. Nos ensaios em praças, nas baterias colaborativas, na organização feita por moradores que acreditavam que a cidade podia ser mais viva, mais diversa, mais democrática.

Foram os blocos de bairro, os blocos afro, as escolas de samba, os músicos e os trabalhadores informais que reconstruíram essa festa. Foi um movimento de baixo para cima, com trabalho voluntário, vaquinha, resistência cultural e muita insistência política para que o poder público reconhecesse a legitimidade da rua como espaço de celebração. A cultura negra foi, e continua sendo, estruturante.Quando a estrutura pública é deslocada prioritariamente para viabilizar grandes shows, o que acontece na prática é a substituição simbólica e material dos blocos. A festa construída de baixo para cima começa a ser engolida por uma lógica de espetáculo.Também as escolas de samba vivem um cenário preocupante. Recentemente, na Avenida do Samba, um presidente de escola anunciou que não pretende mais desfilar devido ao descaso da Belotur. É grave. As escolas são parte estruturante da memória carnavalesca da cidade. Quando elas se retiram por falta de condições, não estamos falando de ajuste administrativo, estamos falando de ruptura cultural.

A pergunta que precisa ser feita é objetiva: o modelo atual fortalece quem constrói o Carnaval o ano inteiro ou prioriza quem chega pronto, com estrutura privada robusta, para ocupar o auge da visibilidade?Há uma concorrência desleal quando grandes produções disputam o mesmo enquadramento regulatório dos blocos tradicionais. Talvez seja hora de rever editais, estabelecer critérios diferenciados, criar contrapartidas. Não para impedir a presença de artistas nacionais, mas para impedir que o Carnaval seja capturado por uma lógica que o descaracteriza.

Carnaval é bloco na rua, escola de samba resistindo, ensaio em praça. É território, pertencimento, ancestralidade. Se a cultura negra foi a base que deu identidade à festa, não podemos aceitar que blocos afro e escolas de samba se tornem periféricos dentro do próprio Carnaval.Estive nas ruas e vi beleza. Potência. Mas também vi a necessidade de pensar em uma festa mais justa. O Carnaval pode ser grande, atrair turistas, movimentar bilhões. Mas não pode ser substituído por um festival de verão com trio elétrico. A pergunta é se teremos coragem política para garantir que as raízes sejam mantidas. Porque, no fim das contas, o Carnaval revela que projeto de cidade estamos construindo e quem estamos colocando no centro dele.

ANDREIA DE JESUS Água que passarinho não bebe vale ouro

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