Há que regionalizar o país a bem das populações! - antónio mário santos
Lembro-me de que, num passado eleitoral para a Presidência da República, segui, na segunda volta, a proposta de Álvaro Cunhal, para se pôr a cruz no quadradinho de Mário Soares, mesmo que certa esquerda desconfiasse mais deste do que de todos os vendedores da banha da cobra.
Relembrei esse momento, quando, em 8 de Fevereiro, era preciso decidir o voto entre António José Seguro e André Ventura. Como votara, na primeira volta, em Catarina Martins, era-me fácil a opção. Entre a seriedade e a bufonaria, entre a democracia e o autoritarismo, entre o respeito pela diferença e a xenofobia racista, o meu voto em António José Seguro não exigiu a superação de nenhum incómodo.
Claro que duvido que, Seguro eleito presidente, a realidade portuguesa se altere e ele consiga ser o mensageiro que trará ao povo trabalhador deste país a mudança política necessária para uma melhoria de vida real, ultrapassando a continuidade de escassez e insuficiência, que parece ser a seu emblema geracional.
Por muito que o deseje, e não duvido das suas boas intenções, a muralha dum grupo minoritário, as chamadas elites, detentoras de bolo económico e financeiro nacional, seguida duma maioria definida como classe média e pequeno-burguesa, cujos rendimentos se baseiam em vencimentos desiguais, mas alinhados por baixo, subordinados à manipulação duma sociedade de consumo assente no empréstimo e na cadeia prisional de impostos que a estrangulam numa vida activa e, depois, numa reforma de sufoco, sob a vigilância atenta das cadeias de televisão públicas e privadas, ambas ao serviço dos interesses dessas mesmas elites ou das suas marionetas governativas, impedi-lo-ão de qualquer tentativa séria de alteração da paz podre da desigualdade em que se sobrevive.
O país não mudou, e estas semanas de tempestades, que puseram a nu uma realidade de fragilidade estrutural, política, económica, social, ambiental, mostraram como o interior é visto pela maioria dos betinhos e snobes de Lisboa, como os classificou Ana Sá Lopes, numa crónica notável, publicada no Público de 16 de fevereiro.
Ante a descoordenação, o atraso e mesmo o ridículo, dum governo, na dimensão da calamidade que atingiu, do litoral ao interior, de norte a sul, o país real, só foi possível, de imediato, alguma minimização e apoio às populações em choque, pela solidariedade e acção das câmaras municipais e juntas de freguesia, que puseram em acção os planos municipais de protecção civil, com a acção imediata das forças de segurança, bombeiros e estruturas concelhias de saúde. E, reforce-se, com o apoio solidário dos vizinhos, essa estrutura multissecular que ultrapassa diferenças ante a ameaça da destruição do bem comum.
Entre Lisboa e as freguesias do interior, nenhum órgão intermédio responsável colmatou as fragilidades de socorro com a celeridade que se exigia.
Daí que me seja permitido dar voz a Ana Sá Lopes: «Há um problema gravíssimo........
