menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A Fraude II

21 0
19.10.2026

O ódio ao conhecimento é um dos grandes perigos do Mundo moderno (…) - Bertrand Russel

Continuemos as reflexões sobre a moda antivacinas, iniciadas na anterior edição do JT.

Para aqueles que acham que este movimento antivacinas é residual e não merece que se lhe dê palco, basta recordar que a evolução da recente cruzada obscurantista foi iniciada em 1998 com uma fraude científica protagonizada por Andrew Wakefield, ex-médico britânico. Porém, um quarto de século depois, já conquistou o poder nos EUA, com consequências catastróficas que estão à vista: um vergonhoso surto de sarampo (o pior em 35 anos) contabilizando já sete mortes, numa nação que eliminara esta doença em 2000. Nos finais do século passado, o mundo aproximava-se da irradicação de mais um flagelo: a poliomielite. Contudo, imbuído desta absurda obsessão antivacinas, o então ministro da saúde da Nigéria proibiu a vacinação e, assim, um dos derradeiros redutos da doença tornou-se o foco donde ela se expandiu. Portanto, este movimento está longe de ser inofensivo ou irrelevante.

Desiludam-se também as mentes mais liberais, para quem a livre escolha individual é valor supremo e cada um opta pelo que acha melhor para si e para seus seus filhos. A desalmada aventura americana mostra que esta campanha não pretende a escolha, mas sim impor uma interdição generalizada à vacinação. O sinistro John F. Kennedy Junior, secretário da saúde (correspondente a ministro) só não conseguiu desmantelar o esquema de vacinação nos EUA, porque foi impedido pelos tribunais, a quem recorreram as sociedades científicas. Quer dizer, o objectivo real destes militantes antivacinas é impedir que os cidadãos se vacinem ou vacinem os seus filhos, independentemente das suas vontades e dos sólidos argumentos científicos que as justificam.

Mas há um argumento mais a contrapor a esta cândida visão liberal: a não vacinação tem implicações para terceiros, não se trata de simples liberdade individual, sem dolo para terceiros. A eficácia das vacinas não é absoluta. Para o caso do sarampo, entre 3 a 5% dos correctamente vacinados não estão protegidos. Só quando se atinge uma percentagem elevada de vacinados num dado grupo (superior a 95%) se pode garantir a eficácia a 100% de que não haverá surto de doença. Quer dizer: o direito constitucional de qualquer cidadão à protecção da saúde conflitua com........

© Jornal Torrejano