Política à queima-roupa
Há uma cena recorrente na história americana que parece saída de um romance de Don DeLillo, o escritor e dramaturgo americano que melhor retrata a vida quotidiana do século XX americana: o instante em que o poder deixa de ser uma abstração institucional e se torna, brutalmente, carne exposta. Um presidente, um candidato, um senador, uma figura pública, todos reduzidos a um alvo. O som seco de um disparo substitui o ruído civilizado do debate. E, nesse momento, a política revela aquilo que sempre esteve latente na sua própria construção: a possibilidade de violência.
Os Estados Unidos não são apenas a mais antiga democracia moderna em funcionamento contínuo, são também um dos poucos países onde a violência política nunca deixou verdadeiramente de fazer parte do sistema. A lista é conhecida, mas nunca suficientemente digerida. Abraham Lincoln assassinado em 1865, James Garfield em 1881, William McKinley em 1901, John F. Kennedy em 1963. A estes juntam-se tentativas falhadas, mas igualmente reveladoras, como o ataque a Ronald Reagan em 1981, ou mais recentemente as múltiplas ameaças e atentados contra Donald Trump, incluindo aquele em que uma bala lhe rasgou a orelha, transformando um comício político num teatro de guerra improvisado.
Esta persistência não é acidental. Está enraizada na própria arquitectura constitucional americana, nomeadamente na interpretação do Second Amendment, que consagra o direito de possuir e portar armas. Ao longo de décadas, este princípio deixou de ser apenas um mecanismo de defesa contra a tirania para se tornar num elemento identitário, quase cultural. Nos Estados Unidos, adquirir uma arma é, em muitos estados, mais simples do que obter determinados serviços públicos. O resultado é uma sociedade onde o potencial de violência está permanentemente disponível, não como exceção, mas como possibilidade constante.
A Europa, por contraste, construiu uma narrativa de distanciamento em relação a essa realidade, mas essa distinção é........
