Desmistificar a reforma laboral
As negociações da nova legislação laboral, em sede de concertação social, foram um exercício de estoicismo para todos os intervenientes, tantas as horas passadas em reuniões. “A adversidade põe à prova os espíritos”, diz-se na peça Coriolano, de William Shakespeare. Ora, o arrastar do processo negocial constituiu um duro, mas proveitoso teste à perseverança de Governo e parceiros sociais. Não dou o tempo por perdido nem desvalorizo os resultados alcançados. Creio que, apesar de tudo, atingimos consensos importantes e conseguiu-se chegar a uma posição de equilíbrio.
Agora, é fundamental que essa posição de equilíbrio se consubstancie numa efetiva revisão da legislação laboral, que adapte o mercado de trabalho à economia do século XXI sem pôr em causa a paz social. Pode parecer a “quadratura do ciclo”, mas acredito ser possível reforçar a produtividade e competitividade das empresas e, ao mesmo tempo, melhorar as condições de trabalho e aumentar os salários. Para isso, importa desmistificar o anteprojeto “Trabalho XXI” e desconstruir os chavões sobre a flexibilidade laboral.
Em Portugal, falar de leis laborais tem o mesmo efeito das músicas dos ABBA numa festa: toda a gente entra em ebulição e, mesmo desafinando, põe-se a cantar em plenos pulmões. E ainda bem, o trabalho é uma questão socialmente sensível, sendo por isso natural que qualquer reforma nesta área gere participação e ativismo social. Acontece, porém, que nem todos cantam como as vocalistas dos ABBA e corremos o risco de no fim da festa só nos lembramos do ruído de fundo.
E, de facto, o debate público sobre o anteprojeto “Trabalho XXI” tem estado envolto num ruído ensurdecedor. Há muita desinformação e equívocos em torno de questões centrais da proposta governamental, o que impede o efetivo esclarecimento dos portugueses e cria um ambiente pouco propício a entendimentos. Desse ruído emerge a ideia capciosa de que os empregadores querem liberalizar os despedimentos, como se as empresas........
