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O triunfo dos ratos

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23.03.2026

Um rato de grande porte - possivelmente uma ratazana, nem o biólogo que consultei tem a certeza - foi encontrado morto, em decúbito lateral esquerdo, sobre pilhas de processos judiciais, no Tribunal de Silves. Na fotografia publicada na última página da nossa edição impressa de sexta-feira e disponível em jn.pt, não se lhe observam, na pelagem entre o cinzento e o acastanhado, lesões que possam ter sido causa da morte. O animal tem todo o aspeto de ter morrido de velho e em paz, além de gordo. Para não ferir suscetibilidades de sujeitos processuais, ocultámos da imagem o número do processo que era visível num dos volumes sobre o qual o bicho se finou, mas diga-se que tal processo foi aberto em 2013, na vaga esperança de que já tenha alcançado a prescrição e não precise de voltar a ser manipulado. O contacto dos humanos com vestígios biológicos da rataria pode causar-lhes patologias graves, nomeadamente a leptospirose, e a comarca algarvia sofre já muito com a escassez de funcionários judiciais e de magistrados do Ministério Público.

O rato que conquistou o direito a obituário no nosso jornal é uma metáfora do estado em que se encontram muitas das instalações da Justiça nacional. Talvez não exatamente as do Campus da Justiça da capital, onde o Estado paga a um senhorio uma renda de mais de um milhão de euros por mês (aqui há gato!), mas de outras onde, além das pragas de ratos e baratas de que se queixou o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público na notícia ilustrada com o defunto de longa cauda, falta espaço ou este é inseguro e indigno, recorre-se a baldes para aparar água e a oleados para proteger computadores quando chove a sério, tetos e paredes periclitantes ameaçam trabalhadores e utentes. No Tribunal de São João Novo, onde são julgadas as trafulhices e as violências mais pesadas da Comarca do Porto, os cancros são tão graves e antigos, que alguns indígenas já meteram na cabeça que o remédio só chegará de Lisboa depois de uma tragédia. E o que dirá Coimbra, que a ministra da Justiça visita hoje e, se a tradição se cumprir, há de repetir o que os seus antecessores fizeram ao longo das últimas décadas, que é prometer que a cidade vai mesmo ter um novo Palácio da Justiça, não haja dúvida sobre isso!?

Caso não tenha reparado, senhora ministra Rita Alarcão Júdice, começa a faltar aos eleitores pachorra para isto. Para isto e para assistir, no edifício judicial, a jogos do gato e do rato em que o segundo, até sem advogado, encontra sempre um buraco por onde se escapulir.


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