O fim do Ensino Superior pelas disrupções tecnológicas – de novo?
Fala-se hoje, de novo, duma disrupção iminente da educação superior. Há quem antecipe que a inteligência artificial irá fragilizar irremediavelmente as instituições, corroer a sua credibilidade e, no limite, substituí-las. A tecnologia surge, nestas narrativas, não apenas como ferramenta, mas como solução total para problemas antigos e complexos. Não é a primeira vez que ouvimos isto.
Há pouco mais de uma década, os Massive Open Online Courses surgiram com uma promessa semelhante: democratizar o acesso ao conhecimento à escala global, tornando dispensável a universidade tradicional. Cursos das melhores instituições, acessíveis a milhões, a custos reduzidos - parecia o início de uma substituição inevitável. No entanto, o que vimos foi outra coisa: integração, adaptação e limites claros. As universidades não desapareceram; transformaram-se e, em muitos casos, incorporaram essas ferramentas.
Antes disso, o ensino online e o e-learning já tinham sido apresentados como alternativas capazes de substituir o modelo presencial. A flexibilidade, a escala e a eficiência apontavam nessa direção. Mas, mais uma vez, o resultado não foi a substituição, mas a coexistência. O digital expandiu possibilidades, mas não esgotou o valor da experiência universitária.
Hoje, com a inteligência artificial, regressamos a uma narrativa semelhante - certamente mais poderosa. Mas a questão essencial mantém-se. Educar não é apenas digitalizar e procurar maximizar a aprendizagem individual. Educar é criar bases. É expor a diferentes correntes de pensamento e permitir que nelas se construa pertença. É criar laços. É crescer como indivíduo autónomo e crítico - no meio de outros indivíduos.
O propósito da educação vai muito além da aprendizagem instrumental, assentando em dimensões fundamentais como a socialização e a subjetivação. Nestas também se constrói não apenas o que sabemos fazer, mas quem somos e como existimos com os outros.
Aqui, a inovação pedagógica ganha um papel decisivo: não como reação acessória à tecnologia, mas como mediação crítica da sua integração. Em Portugal, há um movimento de transformação pedagógica, apoiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência e pelo Conselho Nacional para a Inovação na Aprendizagem e Ensino Superior. É um esforço coletivo que, diante de tecnologias potencialmente disruptivas, está a conduzir a práticas pedagógicas mais efetivas e inclusivas. A tecnologia transformará (sempre?) o Ensino Superior. Mas dificilmente substituirá aquilo que o torna, desde sempre, uma experiência humana e coletiva.
