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Portugal deve afirmar-se geopoliticamente

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25.03.2026

Existem momentos em que o silêncio diplomático, mais do que prudência, se torna cumplicidade. A conjuntura internacional que atravessamos - com o multilateralismo em erosão e o regresso da lei do mais forte - é um desses momentos. Portugal não pode continuar a sussurrar quando o momento exige que fale com clareza.

O conflito com o Irão iniciado a 28 de Fevereiro pelos Estados Unidos da América e por Israel, oferece, pela sua falta de razões atendíveis, de estratégia e até de lógica, razões para a afirmação de razões de Estado e para a defesa de regras e do direito internacional. Perante um Médio Oriente profundamente desestabilizado, milhares de mortos e impactos económicos mundiais muito negativos, há lugar para o juízo crítico e para posicionamentos políticos claros.

A questão não é ideológica. É de interesse nacional. Portugal tem uma posição única no mundo: é europeu, é atlântico, é lusófono. Este triângulo não é um fardo - é um trunfo. Mas os trunfos só servem quando são jogados.

O exemplo de Itália é elucidativo. Giorgia Meloni governa com a extrema-direita na coligação e, ainda assim, não hesitou em afirmar posições italianas próprias em política externa. Mostrou que ter voz dentro de uma aliança não é enfraquecê-la, é dar-lhe substância. Portugal pode e deve fazer o mesmo.

Defender o direito internacional não é altruísmo, é interesse próprio. Um país pequeno, sem poder militar para impor a sua vontade, tem tudo a ganhar num mundo regido por normas e tudo a perder quando essas normas são ignoradas pelos mais fortes.

Portugal é o principal interlocutor europeu de um espaço lusófono que inclui o Brasil e os países africanos de língua portuguesa. Quando Lisboa fala com clareza sobre soberania e direito internacional, essa mensagem ecoa em Brasília, Luanda ou Maputo com uma força equivalente à de Berlim ou de Paris. Sendo uma identidade, a lusofonia é também um amplificador diplomático.

Acrescem a estas razões uma outra, concreta e urgente: Portugal candidata-se a membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU para 2027-2028. Esta candidatura não se vence com dossiers técnicos. Vence-se com credibilidade e a credibilidade constrói-se agora, com posições assumidas perante o mundo.

Frontalidade não é imprudência. Não se trata de confronto, mas de clareza. Portugal sabe que a alternativa ao direito é a força. E a força não favorece os pequenos.

Chegou o momento de o afirmar em voz alta. Como escreveu Álvaro Guerra, vale mais a dignidade que se mostra do que a humildade que se simula.


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