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À espera de palavras certas

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17.03.2026

Não sei se já repararam, mas depois da moda de começar as frases à Tarzan com verbos no infinitivo - "Cumprimentar os presentes. Dizer que me sinto muito honrada por estar aqui hoje. Agradecer o convite à organização do evento" - estamos perante uma epidemia de "colocar". Já ninguém quer dizer "pôr", "inserir", "meter", "dispor", agora usa-se "colocar" para tudo, como se fosse a opção mais refinada, numa uniformização de várias ações diferentes sob o guarda-chuva desse verbo insípido. Uma pena.

Estou tão nauseada com "colocar", que até tenho saudades de ouvir dizer "botar", sem brio ou reservas, mesmo com orgulho. Já não há paciência para tanta colocação, mas pior ainda é a reserva que algumas pessoas têm em usar a palavra "grávida", preferindo dizer "à espera de bebé". Estando eu na condição de gestante, tenho ouvido muito essa expressão e devo dizer que a acho tão pretensiosamente delicada e simultaneamente falsa, que me apetece antes dizer que estou "prenha" como qualquer mamífera, sem pejo ou ensaio de elegância.

É que o processo da gravidez não é de todo uma espera. Quem ouve a expressão em causa pensa que é como estarmos sentadas numa pedra, aguardando pacientemente que nos chegue um bebé às mãos, como se a gestação fosse um hiato temporal, em que placidamente nos tornamos espectadoras passivas do tempo e não agentes de um processo fisiológico. Nada mais falso. A gravidez é um processo intenso, ativo, em que todo o nosso corpo trabalha para tecer ossos, músculos e órgãos vitais, toda a nossa energia é canalizada para o ventre, para operar o milagre da vida, há todo um andaime hormonal que se ergue para auxiliar a construção de um novo ser humano. Ora, dizer que isso é uma espera é quase insultuoso.

Além disso, parece que a vida pára até ao dia do parto, como se suspendêssemos o quotidiano, para nos sentarmos à espera. Quando, na maioria dos casos, as mulheres grávidas continuam a trabalhar (e muito), a tratar dos filhos já nascidos, a cumprir as rotinas escrupulosamente, apesar dos enjoos, dos desconfortos e das dores. Dizer que estamos à espera é subvalorizar o tanto de vida que vivemos, enquanto uma vida nova se tece, é menosprezar o tanto que somos além da condição de gestantes, como mulheres inteiras e pensantes, que sonham, elaboram, questionam, debatem e projetam enquanto o corpo trabalha.

Ademais, se usamos a expressão "trabalho de parto", porque raio é que todo o processo anterior, em que durante dez luas criamos um bebé na barriga, havia de ser uma espera? Trabalhamos para parir, como trabalharmos para gestar. Não digam que estamos à espera. Que ninguém ouse tirar-nos o mérito: somos nós que fazemos os bebés!


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