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Os talheres do Titanic

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01.04.2026

Dizem que o Mundo é dos nerds. Talvez seja uma nova bem-aventurança ou até apologia dos milionários de Silicon Valley - muitos deles antigos adolescentes pouco amestrados que se fechavam nos quartos ou nas garagens.

Mas eu sempre fui um pouco nerd e, em geral, parece que me amestraram o suficiente para não rosnar muito e para sair à rua sem incidentes. Além disso, educaram-me para admirar, porque há tanta beleza, tanto sublime e tanta tristeza também. Posso defender os nerds sem que pareça em causa própria ou, pior, em defesa dos bilionários da tecnologia - até porque, apesar de muito ricos, não se lembraram de me pagar.

Para onde quer que vá, levo sempre comigo um naufrágio. Em criança, por altura da saída do filme, sabia de cor quantos rebites tinha o Titanic (três milhões), quantos metros de comprimento (imensos), de calado (três andares), quantas vítimas, a que temperatura estava a água (fresca) e os nomes dos administradores da White Star Line. De tanto conhecer e me entusiasmar, era como se eu fosse dono de um navio naufragado.

Assim são os nerds: entusiastas, amantes, povoadores de imaginações, proprietários sem propriedade. Contudo, as obsessões podem tornar-se incivilizadas. Nunca confessarei como, nos cem anos do naufrágio, segui, num vídeo do YouTube, minuto a minuto, os acontecimentos da noite de 14 para 15 de Abril de 1912.

Porém, confesso que importunei com perguntas e entusiasmo a dona de uns talheres. Um mês e meio depois do naufrágio, um móvel à deriva no Atlântico foi recolhido por um veleiro de Ílhavo. Chegado a terra, o capitão distribuiu o recheio por amigos e familiares: centenas de talheres, alguns de prata maciça.

As gerações passaram e a herança também. Hoje, em Ílhavo, descendentes de pescadores têm em casa vários talheres do Titanic. Isto maravilhou-me, isto deu-me ganas de bater às portas, mas não cheguei a tal porque bastou um telefonema. Por coincidência, por altura em que esta história se tornou conhecida, eu era editor da então directora do Museu de Ílhavo - uma das herdeiras do Titanic.

Eu mal conseguia falar com Ana Maria Lopes. Imaginava que para ela seria possível comer um bacalhau à Brás como na noite antes do embate com o icebergue. E que, para minha frustração, talvez sentisse a banalidade dos factos extraordinários. Afinal, nasceu proprietária do Titanic. Para ela, o fundo do mar estava à distância de uma colher de prata.

Tentei perguntar-lhe como era, dizer-lhe como me impressionava tudo aquilo, mas saiu-me algo rosnado e incoerente, indigno dos 269 metros de comprimento do transatlântico. E ela lá respondeu como pôde, atenciosa e com simpatia, decerto sem perceber o que queria o nerd.

Ainda que nos defendam, ainda que o Mundo seja nosso, está visto que nós, os nerds, nunca seremos verdadeiramente amestrados.


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