O meu cantinho
Quando, naquele tempo, havia folia na nossa casa, teimosias de adolescente que queria mudar o mundo, porque estava segura de que sabia tudo e de que nada lhe fugiria das mãos, a tia Elvira dizia “com licença, que eu não sou malcriada”, e levantava-se da mesa, agarrava no seu prato e ao sair da porta da cozinha para o terreiro, dizia clarinho como água para a gente ouvir bem: “vou-me embora comer para o sossego do meu cantinho, que isto aqui é tudo uma palheiferreirada”. Esta última palavra, “palheiferreirada”, viajava até às origens de meu pai, o Palheiro Ferreiro, mas não o ofendia, porque aquela boca da tia Elvira não era para ele; ia era direitinha para mim, que lhe fazia lembrar as desfeitas e as coisas tontas do eterno marido, conterrâneo de meu pai, e que bem a arreliava, sempre embarcado nos confins da Venezuela.
Aqui há dias, ao entrar dentro da minha viatura, expedi a uma colega o que me ia na alma: “Vou-me embora para o meu cantinho espalhar o stress na minha horta -........
