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O bairro dos que moram no hospital

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28.03.2026

De acordo com as últimas indicações, há 320 pessoas que, tecnicamente, estão em situação de alta problemática no Serviço Regional de Saúde. Ou seja, são doentes que já podem regressar a casa, mas continuam internados porque não têm mais para onde ir ou ninguém os vai buscar.

São pessoas como nós. Como todas as outras pessoas. Só que são doentes e moram no hospital.

Esta circunstância, quando vista assim, causa algum desconforto na consciência das pessoas. Mas é coisa passageira. Vem outra notícia, outro entretenimento, outra polémica e ficam os doentes e velhos esquecidos na enfermaria.

Por várias razões, a Madeira conhece bem essa nova prática social. Numa terra catita, soalheira e bilhardeira como a nossa, é quase comum haver um morador da enfermaria número tal, que faz cruzamento com uma unidade de nome novo, mas que acolhe velhos. Acolhe, não. Recolhe velhos.

Ficam para ali a tirar medidas às paredes, a roubar tempo ao tempo, a mirar as pontas dos dedos enquanto desfilam credos.

Vivem ali, naqueles quartos coletivos e ao mesmo tempo tão impessoais. Tão iguais, mas feitos para receber desiguais.

Não estão ali porque querem, nem pediram. Estão ali porque a doença os empurrou para um corredor, uma maca, uma enfermaria. E ali ficaram.

Condenar as famílias, que não os levam para casa, é a sentença mais fácil. E tantas vezes a mais cruel, mesmo sabendo que alguns agregados tinham o dever de estar mais próximo e ajudar a cuidar dos seus.

Mais do que a indisponibilidade de uma sociedade que tem de fazer pela vida, é imperioso contar com obstáculos naturais que impedem familiares de levar o doente para casa. Há escadas por todo o lado, há becos, há barreiras que dificultam movimentos dentro das próprias habitações.

Perante esses e outros impedimentos, salta à vista a necessidade de uma maior resposta social. Nem é já um problema de saúde, por muito que se confundam as áreas. E é normal essa confusão, pois ninguém reclama da sobrelotação das enfermarias ou dos bons cuidados lá prestados.

A reclamação fica à porta, no primeiro patamar de encontro entre utentes e profissionais de saúde, ou seja, nas Urgências. É aí que reside o problema com maior impacto, porque não há espaço para acolher todos nos serviços da especialidade.

Mas a questão é mais vasta e vai bem para lá da saúde. É essencialmente uma carência que exige mais respostas sociais. Podem ser lares, ou outros modelos institucionais que acolham os doentes em alta clínica e libertem o hospital para os tratamentos e os internamentos realmente necessários.

O importante é que se encontrem alternativas que vão ao encontro das atuais exigências da sociedade que, genericamente, quer bem aos seus velhos e doentes, mas não tem como os acolher e cuidar devidamente em casa. E, como sabemos, a esmagadora maioria das famílias também não tem dinheiro para pagar uma fortuna nos lares.

É deste cruzamento de realidades que surge a urgência numa solução digna para casos urgentes, outros utentes e respetivas famílias.

A continuar assim, sobra a triste e perturbadora ideia de abandono social daquele bairro de mais de 300 pessoas.

A continuar assim, é o tempo que se lembra deles e eles do tempo. Só o tempo. Porque o sistema parece que já os esqueceu e inadvertidamente espera que libertem camas para dar a outros.

A continuar assim, é preciso lembrar que os cuidados de saúde e a dignidade da velhice não funcionam com as regras aceleradas do Alojamento Local.


© JM Madeira