A colheita da IA começou e o mundo está sendo redesenhado
Por mais de uma década, economistas conviveram com uma versão moderna do Paradoxo de Solow: a inteligência artificial estava em toda parte, menos nas estatísticas de produtividade. Essa era acabou. Os dados mais recentes do Bureau of Labor Statistics americano sugerem que os Estados Unidos entraram na fase de colheita do ciclo da IA — e as implicações para o equilíbrio global de poder são profundas.
Em artigo publicado no Financial Times, em 15 de fevereiro, Erik Brynjolfsson, diretor do Digital Economy Lab de Stanford, apresentou uma análise que deveria tirar o sono de qualquer formulador de política pública fora do eixo Washington-Seul-Taipei: a produtividade americana cresceu aproximadamente 2,7% em 2025 — quase o dobro da média anêmica de 1,4% que caracterizou a última década.
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O número ganha ainda mais força quando se observa o mecanismo por trás dele. A revisão anual do Bureau of Labor Statistics mostrou que o crescimento do emprego em 2025 foi ajustado para baixo em cerca de 403 mil vagas em relação às estimativas preliminares. Ao mesmo tempo, dados do Bureau of Economic Analysis indicaram que o PIB real permaneceu robusto, com crescimento anualizado de 3,7% no quarto trimestre. Essa dissociação — manter o produto elevado com significativamente menos trabalho do que se supunha — é a assinatura clássica de um ciclo de ganhos de produtividade.
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Brynjolfsson chama isso de “curva J” da produtividade: tecnologias de propósito geral, do motor a vapor ao computador, não entregam ganhos imediatos. Exigem um período de investimento maciço em capital intangível, como reorganização de processos, retreinamento da força de trabalho e desenvolvimento de novos modelos de negócio. Durante essa fase, a produtividade medida é suprimida. Os dados de 2025 sugerem que os EUA estão saindo dessa fase de investimento e entrando na fase de colheita.
A Evidência Física: Escassez de Memória
Se os dados de produtividade representam o lado abstrato da confirmação, a escassez global de chips de memória é o lado físico — tangível, mensurável e implacável.
Segundo a Bloomberg, o custo de determinados tipos de DRAM chegou a subir mais de 70% em um único mês, com distribuidores alterando preços quase diariamente. O termo “RAMageddon” deixou de ser exagero e passou a descrever a dinâmica de mercado.
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Líderes como Elon Musk e Tim Cook alertaram publicamente sobre o impacto em seus negócios. A Micron chamou o gargalo de “sem precedentes”. A IDC, em relatório de fevereiro de 2026, projetou a maior queda da história do mercado global de smartphones: contração de 12,9% em 2026, com embarques caindo para 1,12 bilhão de unidades — o menor nível em mais de uma década. O segmento de smartphones abaixo de US$ 100, representando 171 milhões de dispositivos, tornou-se “permanentemente antieconômico” segundo a IDC.
As três empresas que dominam a produção global de memória avançada — Samsung Electronics, SK Hynix e Micron Technology — estão redirecionando capacidade para HBM (High Bandwidth Memory), essencial para IA. Estimativas indicam que o HBM consumirá cerca de 20% a 23% da capacidade global de wafers de DRAM já em 2026.
Executivos do setor projetam que o desequilíbrio entre oferta e demanda pode se estender até o fim da década, consolidando um superciclo estrutural de memória impulsionado pela IA.
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A escassez não é apenas um fenômeno de mercado. É uma arma geopolítica que opera por alocação, não por sanção.
O oitavo pilar da Fortaleza Americana
Em análises anteriores, identifiquei sete pilares da dominância estrutural americana: tecnologia, energia, capacidade militar, sistema financeiro, demografia, geografia e institucionalidade. Os eventos das últimas semanas sugerem a emergência de um oitavo pilar: o controle da cadeia global de memória.
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