O abismo do tênis: o choque entre tradição, festivalização e a tomada de território pelos criadores
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Durante sua apresentação na AO Live Opening Week, o renomado DJ e produtor Cassian resgatou “Arian”, faixa lançada há dois anos pelo selo Afterlife, para construir um sample incomum: substituiu as batidas originais pelo som da bola em um rally disputado no passado entre Roger Federer e Rafael Nadal.
O australiano compõe o lineup galáctico do evento eletrônico que acontece em paralelo às partidas disputadas nas quadras duras do Melbourne Park. No domingo, Peggy Gou, uma das DJ’s mais cobiçadas da cena global, encerrará as festividades no dia da final masculina. Até o último fim de semana, os ingressos seguiam à venda, com preços entre 89 e 196 dólares australianos.
Este é o exemplo mais explícito do fenômeno que levou o jornal The Age a publicar um artigo sobre a “festivalização” do Australian Open.
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E a proposta de vender o Grand Slam como um híbrido de festival cultural e musical está funcionando. Em 2023, quando o torneio rebatizou a semana de qualificação como “Semana de Abertura”, 63.120 pessoas compareceram. Este ano, o público foi de 217.999, um aumento de 87% em relação a 2025, segundo dados do site The First Serve.
É um contraste que ecoa diretamente o artigo de Alyson Rudd publicado pelo The Times na semana de abertura do torneio. A jornalista critica a transformação do esporte em entretenimento ao repercutir a informação de que o All England Lawn Tennis Club exigirá mudanças significativas na cobertura da BBC sobre Wimbledon.
A percepção interna é de que outras emissoras vêm sendo “mais inovadoras e eficientes” em atrair públicos mais jovens. As transmissões da Sky para os circuitos ATP e WTA, assim como a cobertura de Roland-Garros e do Australian Open pela TNT Sports, são citadas como referências.
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Hoje, a BBC paga cerca de 60 milhões de libras por ano para exibir Wimbledon, um torneio transmitido pela emissora desde 1927 no rádio e desde 1937 na televisão.
A discussão, portanto, não é somente editorial. Ela envolve tradição, valor de marca e a disputa por relevância em um ecossistema de mídia pulverizado. O impasse se insere em um problema maior, bem mapeado por Charlie Eccleshare em reportagem publicada pelo The Athletic.
O artigo expõe por que a mídia do tênis se tornou um sistema fragmentado, dos direitos de transmissão dos Grand Slams à circulação de melhores momentos nas redes sociais.
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No centro da questão está a “tensão entre conteúdo oficial e não oficial”, e a forma como direitos e acordos definem essa fronteira. Esse embate será determinante para o futuro da modalidade como produto de mídia.
Ao trazer este recorte para o Brasil, abrimos 2026 com a CazéTV tentando atacar o domínio de direitos histórico da ESPN/Disney por meio de vídeos sociais e parcerias com criadores da bolha do tênis para impulsionar seu novo hub. Seria ingênuo imaginar que a ambição do canal se limitaria à transmissão da Copa Davis.
No ano passado, escrevi no InfoMoney sobre como a distribuição do tênis se dilui entre plataformas e por que o esporte ainda patina para se comportar como um ativo de mídia plenamente moderno. A discussão já apontava para o........
