O ativo que nenhuma holding registra
Nas últimas semanas participei de um evento sobre filantropia e impacto social e venho pensando com mais recorrência numa dúvida constante: por que as grandes fortunas brasileiras doam muito abaixo do que poderiam, e o que doam ainda nasce, na maior parte das vezes, do impulso do momento?
Uma enchente, um incêndio, uma campanha de fim de ano. Não que essa ajuda pontual não gere impacto, ao contrário, toda ajuda e generosidade é bem-vinda, mas por que são poucos que a fazem com constância, planejamento? Por que uma família que planeja com tanto cuidado a sucessão patrimonial e da empresa trata a filantropia como um gesto avulso?
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Acredito que filantropia, legado e impacto social ainda são tratados como um ponto cego no ambiente do planejamento patrimonial. O maior risco ao patrimônio de uma família raramente vem de fora, ainda que seja tentador achar o contrário.
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Não é o mercado que balança, não é a reforma tributária do momento, não é o litígio societário que excelentes advogados sabem equacionar. O risco de verdade, o que realmente corrói, é mais simples, sinto que muitas vezes, a riqueza sem relato de origem tende a desmontar em outra geração.
Na minha visão, é justamente nesse vão entre patrimônio e propósito, que a filantropia bem estruturada entra. Não como moeda de reputação ou como capítulo de relatório de sustentabilidade, mas sim como parte da própria arquitetura do legado, ao lado da holding, do protocolo e do testamento, ainda que costume ser a última a ganhar mais atenção.
Duas heranças, e a segunda ninguém terceiriza
Toda família que planeja sua sucessão está, quase sempre sem perceber, lidando com duas transferências de natureza completamente diferente.
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A primeira é a transferência de riqueza, que em inglês os especialistas chamam de wealth transfer: holding, participação societária, imóvel, previdência, investimento, tudo isso é técnico, é jurídico, cabe em contrato e pode, com relativa tranquilidade, ser delegado a advogados, contadores e gestores competentes. Hoje existem muitos instrumentos para realizar essa primeira transferência.
A segunda é a transferência de valores, o que os mesmos especialistas chamam de values transfer: o que a família acredita, por que construiu o que construiu, o que ela espera, de verdade, que sobreviva a ela quando ela já não estiver mais lá para explicar. Essa segunda transferência ninguém........
