Quer liberdade? Então aguente a ala das famílias em conserva
Oportunistas pela própria natureza, vários políticos e influencers se revoltaram e pelo menos dois anunciaram ações contra o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói. Sim, aquela que homenageou Lula e foi rebaixada. Mas as ações não têm nada a ver com a tal da isonomia eleitoral, a propaganda antecipada ou o dinheiro público destinado ao desfile bajulador.
O governador de Minas Gerais e eterno pré-pré-candidato à Presidência Romeu Zema, por exemplo, protocolou nada menos do que uma notícia-crime contra os dirigentes da agremiação, acusada de intolerância religiosa por causa daquela ala que fazia referência aos conservadores enlatados. A ala das famílias em conserva.
A notícia-crime de Zema evoca a Lei do Racismo – aquela que foi totalmente desfigurada e hoje me impede de fazer referências críticas ou jocosas à turma da sopa de letrinhas, por exemplo.
E lá vou eu me indispor com os leitores e alguns colegas. Será que vou mesmo? Vale a pena? Vou! Vale! Agora sim. Agora não. Agora sim. Depois dos dois-pontos: Zema está errado.
Por quê? Ora, e por acaso a família tradicional, os conservadores, os evangélicos, os bolsonaristas e a própria direita não podem ser criticados e ridicularizados? Desculpe a franqueza, mas isso se parece muito com a postura daquilo que vou arriscar aqui e chamar de fascismo identitário.
Outro que está errado é o deputado Nikolas Ferreira, que anunciou a intenção de acionar o Ministério Público contra a escola de samba. E aqui vale a pena chamar a sua atenção para a gravidade desse equívoco, é, vamos chamar de equívoco.
Temos dois políticos da direita usando um instrumento legal, a Lei do Racismo, uma lei convenientemente deformada pela esquerda e que tem o objetivo claro de suprimir a liberdade de expressão e interromper o debate público acerca de questões morais para... suprimir a liberdade de expressão e interromper o debate público. Só porque agora “dói em nós”. Digo, neles.
Aliás, a equipe do deputado mineiro anda precisando de umas aulas de interpretação de texto e semiótica. Isso porque, de acordo com a matéria da minha amiga Raquel Derevecki, para a equipe de deputado Nikolas “os cristãos [e quem garante que eram cristãos?] teriam sido retratados em ‘latas de sardinha’ [oi?!], como se fossem algo a ser descartado [!]”.
Uau! Isso é que eu chamo de salto lógico. Assisti ao desfile, vi a ala e, para mim, aquilo não foi nada mais do que uma brincadeira tola, inócua e pueril típica desses desfiles, com o termo “conserva”, comumente usado nas redes sociais para se referir aos conservadores.
Ou seja, é uma piada, uma crítica rasteira e uma discordância absolutamente legítima. Piada, crítica e discordância do tipo que um dia espero recuperar a liberdade de expressar, tendo por alvo os progressistas, principalmente os chatos dos identitários, sem ter de consultar o dr. X antes.
QI de temperatura ambiente
Ah, entendo. É que, na cabeça de quem está se sentindo ofendido com a ala das famílias em conserva, o clamor pela liberdade de expressão só faz sentido na hora de defender Claudia Leite (e tem que ser defendida mesmo!) ou Leo Lins (idem!). Mas, pessoal, na boa: isso é coisa de quem ou não entendeu o conceito ou, mais provável, está com o raciocínio nublado pela ideologia.
Pois vou tentar desnublar a coisa toda. A direita, os conservadores, os evangélicos, os que amamos nossas famílias não temos o direito de nos sentir ofendidos por discordâncias jocosas e pacíficas como a da escola de samba Acadêmicos de Niterói. Ainda mais uma crítica dessas, feita por alguém com QI de temperatura ambiente para um público não muito melhor. Não temos.
Até porque, nesse e em tantos outros casos semelhantes, a ofensa denota certa insegurança. Repare: se a esquerda quer, e quer, controlar o que pode ou não ser dito é porque sabe que suas convicções não resistem a um escrutínio. Aí está a turma que trocou a “aceitação do próprio corpo” pela caneta de Mounjaro, e que não me deixa mentir.
Ora, você que está me lendo não tem certeza de que a família é a unidade essencial da sociedade e de que Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida? Então por que se importar com o que diz um carnavalesco? Um carnavalesco! Se você se importa tanto assim, a ponto de judicializar a questão, sei lá. Talvez o problema não esteja no desfile e na ala das famílias em conserva, e sim naquilo que fundamenta suas convicções e fé.
Vou repetir: o que Zema e Nikolas (e talvez você) não percebem é que, ao recorrerem a um instrumento legal comumente usado pela esquerda com o objetivo claro de suprimir a liberdade de expressão e interromper o debate público (e tudo isso por causa de uma patética fantasia de carnaval!), eles estão fazendo a mesmíssima coisa que, noutras circunstâncias, juram combater.
Isto é, eles estão suprimindo a liberdade de expressão e interrompendo o debate. Só porque a crítica vem da esquerda. Eles estão legitimando os instrumentos de repressão do livre-discurso. Quer falar mal da família conservadora? Manda ver! Quer rir da minha fé? Rezarei por você. Quer me xingar por tudo isso que escrevi? Xinga, ué. Fazer o quê? Eu aguento.Xinga aí enquanto eu continuo aqui, lutando pela nossa liberdade de expressar nossas convicções e até um pouco das nossas tolices, que ninguém é de ferro.
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