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O Natal proibido – Um conto da República Socialista do Brasil

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25.12.2025

1.

É noite de 24 de dezembro na cidade antigamente chamada São Paulo. A viatura desce a antiga Rua da Consolação, agora chamada ― como é o nome dela mesmo?

Dimas tenta se lembrar do novo nome sem olhar a placa e sem tirar a atenção do volante. De repente, um estalo:

Erundina, Rua da Erundina diz em voz baixa, despertando a atenção do Comandante Heron, que está ao seu lado, no banco do carona.

Heron sorri. Como é que esse sujeito consegue ouvir um sussurro por trás do escafandro? Deve ter ouvido de leproso, como dizia Vó Marta.

― Você conheceu a velha?

― Eu não, mas o pai dizia que votou nela uma vez.

Novo sorriso, por trás da viseira de plástico.

― Teu pai era fascista, Dimas?

Dimas fica em silêncio; olha para o muro imundo do também renomeado Cemitério da Erundina, pigarreia e diz com a voz abafada pela máscara:

― Se ele votou na velha, não devia ser, né?

Dimas só não contou que o pai odiava a Erundina. Sim, votou na velha, mas se arrependeu quase que imediatamente. Certa vez, falou sobre a antiga prefeita em um dos passeios com Dimas pelo cemitério. Mas foi um comentário rápido; quase não falavam sobre política nas caminhadas entre os túmulos. Gostavam mesmo é de falar dos mortos famosos, e de calcular as idades dos mortos, e de tirar sarro dos mortos com nome engraçado.

― Arno Kuhl. Vê lá se isso é nome! ― dizia o pai ao filho, e este, menino de sete anos, gargalhava de perder o fôlego.

Certa vez, do nada, o pai de Dimas observou:

― A decadência de São Paulo começou quando a Erundina entregou a administração funerária ao PCB e a secretária de Educação ao Paulo Freire.

Agora o cemitério se chama Erundina.

2.

Em cada esquina há uma Tela Pública. No gigantesco quadrado luminoso, discursa o Presidente do Planeta, Deng Zedong. O discurso também é reproduzido pelo rádio ― e é obrigatório ouvir. Se qualquer pessoa for pega com o rádio desligado na hora dos pronunciamentos oficiais, a multa é pesada. Mas, no caso deles, funcionários públicos, a perspectiva é bem mais sinistra: não só ir pro olho da rua, como ser processado pelos Tribunais Populares, perder a Carteira de Mobilidade Social e terminar na Zona de Exclusão. Ninguém quer esse destino.

Hoje é a Noite da Consciência Igualitária. Deng discursa em mandarim, mas sua voz é encoberta pela tradução simultânea de seu colega Petros, Presidente da República Socialista do Brasil, primeiro chefe não-binário da nação. Enquanto dirige Erundina abaixo, Dimas ouve aquele estranho dueto com o paulistanês em primeiro plano e o recitativo chinês ao fundo, em sottovoce. Depois dos pronunciamentos de Deng e Petros, quem encerra a noite é o Dr. Bonini, Comissário da Saúde Pública, no seu carioquês pesado:

― E pensar, mei estimade amigue Petros, que há algunx poucox anox o mundo comemorava nesta data uma festa........

© Gazeta do Povo