Uma deliciosa história do impossível
Pessoas não flutuam no ar, nem podem estar em dois lugares ao mesmo tempo, certo? CERTO? Ao menos isso é o que nos diz a “ciência, ciência, ciência” (©Mandetta). Em 1983, o historiador Carlos Eire estava visitando o convento carmelita de Ávila, na Espanha; quando o grupo chegou ao locutório, o local onde as freiras podiam conversar com os visitantes através de uma grade, a guia soltou um “foi aqui que Santa Teresa e São João da Cruz levitaram juntos pela primeira vez”, assim, com a naturalidade de quem narra um fato incontestável. A guia de fato acreditava nisso? Estava no piloto automático após já ter repetido isso inúmeras vezes? Estava só obedecendo as ordens dos chefes? Eire, professor na Universidade Yale desde 1996, ficou tão intrigado que começou a pesquisar essas histórias; entre idas e vindas, levou 40 anos até publicar o delicioso They Flew – A history of the impossible.
O subtítulo diz tudo: aquilo que os católicos afirmam sobre as levitações e bilocações de santos é... bom, é impossível. A não ser que... pois é, mas como vamos provar? São eventos que ocorreram séculos atrás. Não há fotos, muito menos vídeos, de Santa Teresa de Ávila ou São José de Cupertino voando por aí. No caso das bilocações é ainda mais complicado, pois as testemunhas nem são as mesmas (a não ser que também elas pudessem estar em dois lugares ao mesmo tempo). Então, Eire fez o que os historiadores deveriam fazer: mergulhou em todas as fontes primárias que conseguiu encontrar, ciente de que não conseguiria comprovar para além de qualquer dúvida que determinado evento de fato ocorreu – e ciente de que estava arriscando sua reputação, pois não poucos colegas historiadores o veriam com suspeição por estar pesquisando eventos que, ao menos segundo nossa mentalidade hiper-racional, jamais poderiam ter acontecido.
Os relatos sobre as levitações existem, são numerosos, detalhados, provenientes de pessoas de todos os estratos sociais, de camponeses a nobres, reis e até papas
Os relatos sobre as levitações existem, são numerosos, detalhados, provenientes de pessoas de todos os estratos sociais, de camponeses a nobres, reis e até papas
(Uma digressão sobre essa mentalidade hiper-racional: em setembro do ano passado, estava nos Museus Vaticanos e, como comprei o ingresso de última hora, só havia a opção mais cara da visita guiada. Mas era isso ou nada, então fui lá. A guia até avisou no começo que não era obrigatório ficar com o grupo, mas resolvi dar uma chance. Grande arrependimento. Ela não nos levou a galerias importantes como a Pinacoteca e a ala egípcia; e nas Salas de........
