Quando “brincar de Deus” é bom e até desejável
“Sereis como deuses”, quem já leu o Gênesis sabe, foi a primeira tentação, com a qual o demônio conseguiu levar Adão e Eva ao pecado original. É óbvio, portanto, que a ambição de ser como Deus não é coisa nada boa. Mas... e se de alguma forma fosse não só possível, mas até desejável, que o ser humano pudesse “brincar de Deus” em alguns aspectos? É essa provocação nada trivial que Mário Antônio Sanches faz no seu livro Brincando de Deus – Bioética e as marcas sociais da genética. O subtítulo entrega tudo: a genética e o enorme conhecimento que adquirimos sobre o genoma humano são as ferramentas usadas nesse processo, e logo na introdução Sanches já diz que “o ‘brincar de Deus’ pode ser visto como a grande missão humana, desde que seja feita na perspectiva dos propósitos divinos” – o destaque é meu, e ele faz toda a diferença.
Brincando de Deus é de 2007, ou seja, está para completar 20 anos. Pode estar desatualizado em seus aspectos mais factuais do ponto de vista científico – por exemplo, o uso do CRISPR como ferramenta de engenharia genética é posterior ao lançamento do livro –, mas continua fresco nas reflexões bioéticas e teológicas que propõe. Sanches é professor na PUCPR e, arrisco dizer, é o grande nome da Bioética no Paraná (e um dos principais no Brasil); quando eu era repórter e fazia matérias sobre o assunto na Gazeta, fazia questão de consultá-lo, e por pouco não acabei entrando no mestrado em Bioética que ele montou na universidade.
Sanches narra o desenvolvimento da genética, desde as ervilhas de Mendel até o Projeto Genoma Humano, com todas as expectativas que ele gerou – algumas se realizaram, outras não, como a ambição de descobrir “o gene que controla isso ou aquilo”, que John Cleese até satirizou em um vídeo de 2016 no YouTube. O autor mostra como esse conhecimento ajudou a moldar o que sabemos sobre a evolução humana, e lembra como dois erros filosóficos grandes e comuns também se aproveitaram da genética para se espalhar: o reducionismo (“não somos mais do que os nossos genes”) e o determinismo (“somos única e exclusivamente produto do que está em nosso código genético”). Sanches defende, com muita razão, que é preciso não apenas rebater esses dois erros – ele chama o........
