A proposta de Solesmes para a paz litúrgica
O blog tradicionalista Rorate Caeli publicou, na semana passada, o conteúdo de uma carta enviada por dom Geoffroy Kemlin, abade de São Pedro de Solesmes, na França, ao papa Leão XIV em novembro do ano passado. No texto, dom Kemlin faz uma sugestão que, segundo ele, “colocaria um fim na disputa litúrgica que atormenta os fiéis na França, mas também nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Alemanha e em muitos outros lugares”. O abade se refere, obviamente, à controvérsia envolvendo a celebração do rito tridentino, segundo o missal de 1962, o último antes da reforma litúrgica de 1969, que criou a missa como todos nós a conhecemos hoje.
Mas, antes de tratar da ideia de dom Kemlin, é preciso falar um pouco de Solesmes – onde, aliás, celebra-se o rito de São Paulo VI, não o tridentino. Qualquer católico que aprecie o canto gregoriano, independentemente de ser tradicionalista ou de assistir à missa nova, tem uma dívida enorme com Solesmes, porque foi graças a essa abadia, inicialmente sob a liderança do Servo de Deus dom Prosper Guéranger, que o gregoriano praticamente ressuscitou na virada do século 19 para o 20. Até hoje tenho meus exemplares do Graduale Romanum e do Cantus Selecti, além de um missal gregoriano latim-inglês (no rito novo; ficou desatualizado após a aprovação dos novos textos em inglês, em 2011). Ou seja, quando o abade de Solesmes diz algo sobre liturgia, merece ser ouvido.
Dom Kemlin lembra, na carta, que algumas das abadias “filhas” de Solesmes adotaram o rito tridentino, e que isso no início gerou alguma tensão, já resolvida. Dessa experiência, em parte, nasceu a proposta enviada ao Vaticano. “Como defensor ardoroso do rito paulino, posso atestar que a maioria dos adeptos do rito antigo o é por encontrarem nele uma experiência espiritual forte e autêntica que são incapazes de encontrar no missal novo”, diz o abade, acrescentando que é hora de admitir esse fato, e também que “os dois Ordos (o de Paulo VI e o de Pio V) apresentam diferenças significativas na ‘unção’ litúrgica e nas maneiras de entrar em oração, e destacam antropologias diferentes”, razão pela qual “jamais conseguiremos que aqueles ligados ao Vetus abracem livremente o Novus Ordo”. Por outro lado, não há como revisar o missal de Paulo VI para que ele incorpore elementos do missal tridentino, porque isso desagradaria a todos e levaria a uma situação de “três missais” – imaginem só o que aconteceria se grupos de fiéis quisessem continuar a ter a missa segundo o missal de 2002 (a versão mais recente do Novus Ordo)...
Se o consistório prometido para junho deste ano realmente tiver a liturgia na pauta, a sugestão de dom Kemlin bem que poderia estar na mesa para discussão
Se o consistório prometido para junho deste ano realmente tiver a liturgia na pauta, a sugestão de dom Kemlin bem que poderia estar na mesa para discussão
Um missal, dois ritos
A sugestão do abade, então, é “inserir no Missal Romano o antigo Ordo Missae (minimamente revisado para conformá-lo ao Concílio Vaticano II, especialmente com a possibilidade, para quem quiser, do uso do vernáculo, da concelebração e do uso das quatro orações eucarísticas), enquanto o novo Ordo Missae permanece inalterado. Ambos os Ordos Missae, então, fariam parte de um único Missal Romano”. Consultei vários amigos que entendem de liturgia e, se entendemos bem, caso a sugestão fosse atendida, os sacerdotes teriam uma variedade de opções. Se quisessem celebrar o Novus Ordo exatamente como fazem hoje, poderiam; se quisessem celebrar o rito tridentino, poderiam também – embora com um calendário litúrgico e leituras unificadas nos dois ritos, pela sugestão de dom Kemlin –; se quisessem celebrar o rito tridentino em vernáculo, com uma oração eucarística diferente do Cânon Romano, poderiam também. Mas, a julgar pela entrevista de dom Kemlin que o Rorate Caeli também publicou, as possibilidades seriam ainda maiores: “O padre poderia simplesmente escolher incorporar elementos do missal antigo que não aparecem mais no missal de Paulo VI. Penso, por exemplo, nas orações ao pé do altar, ou o ofertório antigo, que foi........
