Por que os misóginos de esquerda são favoráveis ao PL que criminaliza misoginia?
A militância pelo PL da misoginia nas redes sociais causa desconforto em qualquer pessoa minimamente honesta intelectualmente. Muitos influenciadores de esquerda comemoram um projeto de lei que pretende criminalizar a misoginia. Ocorre que esses mesmos influenciadores costumam se dirigir a mulheres com termos como “vagabunda”, “arrombada”, “piranha”, “burra pra caralho”, “vai lavar uma louça”, “se alguém comesse não era tão amarga”, “vou comer seu k* e ver se esquece o assunto”. A coisa mais comum é o defensor do projeto ter em sua timeline uma sequência longa e reiterada de ataques que não deixam dúvida sobre o que pensam e como tratam mulheres.
Não são casos isolados, mas um um padrão consistente de linguagem, comportamento e intenção. E é justamente por isso que o entusiasmo com o projeto chama atenção. Pessoas que, na prática, reproduzem aquilo que o texto pretende punir não demonstram qualquer preocupação com eventual enquadramento. Ao contrário, celebram.
Esse tipo de contradição costuma ser um excelente ponto de partida para análise de discurso. Quando alguém apoia uma regra que, em tese, poderia atingi-lo diretamente, há quase sempre uma razão estratégica por trás. Neste caso, ela aparece com relativa clareza: o projeto não vai punir misóginos, vai calar mulheres que reclamam deles e, em última análise, qualquer um que incomodar a esquerda.
Há hoje mais de 30 propostas em tramitação no Congresso que tratam de misoginia. O projeto aprovado no Senado segue uma linha específica ao alterar a Lei 7.716, conhecida como Lei do Racismo, para incluir a misoginia entre as condutas criminalizadas. Essa escolha não é trivial. Ela desloca um conceito que, até aqui, pertence ao campo da crítica........
