A vida vale mais que convicções subjetivas
É embaraçoso escrever uma tréplica quando o autor da réplica é um ídolo meu, como o economista Adolfo Sachsida. O constrangimento aumenta porque, sem ter mudado meu pensamento sobre o tema (vale a pena morrer por uma causa?), concordo com boa parte do que ele escreve em sua coluna.
Ainda assim, creio que sua leitura do que Polzonoff e eu defendemos simplifica e, em certa medida, desloca o ponto central do nosso argumento. Por exemplo, em nenhum momento afirmei que a morte em nome de uma causa é desprezível. O que questionei foi a elevação do sacrifício à condição de virtude intrínseca, sem levar em conta o contexto e a falibilidade humana.
A distinção é crucial: defender genericamente a morte em nome de princípios pode ser nobre na intenção, mas me parece equivocado na premissa e perigoso nas consequências. Não se trata de covardia travestida de prudência, apenas de uma visão mais sóbria sobre o valor da vida e a mutabilidade das crenças.
Sachsida evoca a tradição dos mártires cristãos. Ora, a fé religiosa opera em um horizonte metafísico no qual a morte não é o fim: nesse caso, a disposição ao martírio integra uma cosmovisão que transcende a existência terrena. Transpor essa lógica para a política exige bastante cautela, porque a política lida com instituições humanas, contingentes e imperfeitas. Sacralizar causas políticas foi justamente o que já levou a tantas tragédias na História.
O argumento de que “a história da civilização é atravessada pelo sacrifício voluntário” é verdadeiro, mas incompleto. A mesma História está repleta de incontáveis mortes motivadas por certezas absolutas que, mais tarde, revelaram ser equívocos morais.
A Revolução Francesa oferece um exemplo eloquente. A disposição de morrer pela revolução rapidamente se transformou na disposição de matar por ela. Inspirados por ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, revolucionários passaram a considerar........
