A terceirização da política foi um desastre
A crise que hoje corrói o país não surgiu do nada. Ela foi, em larga medida, contratada quando a disputa contra o bolsonarismo deixou de ser travada no campo político — no debate público, na articulação parlamentar, na mobilização social — para ser terceirizada ao Poder Judiciário. Tudo o que está acontecendo agora é consequência disso.
Ao substituir o embate democrático pela judicialização sistemática e por uma estratégia de asfixia institucional dos adversários, o campo lulopetista pode ter vencido batalhas imediatas, como evitar a reeleição de Bolsonaro e mandar desafetos para o exílio. Mas, fazendo isso, pavimentou o caminho para um grave processo de perversão da democracia – que agora começa a cobrar seu preço.
Nesse processo de terceirização, naturalizaram-se inquéritos abertos de ofício, bloqueios de perfis em redes sociais, desmonetização de influenciadores, prisões preventivas prolongadas e interpretações elásticas de competências constitucionais.
Ao incorporar essas práticas ao repertório de contenção do bolsonarismo, a Corte se politizou. Para atingir seus objetivos, não hesitou em borrar a fronteira entre crime e dissenso – com o apoio entusiasmado da grande mídia, é importante lembrar.
Mas a democracia não se fortalece com atalhos institucionais. Com o passar do tempo, torna-se evidente que delegar ao STF a linha de frente do combate ao bolsonarismo foi um erro de proporções épicas.
Quando se optou pelo confronto baseado em inquéritos, decisões monocráticas, medidas cautelares e expansões interpretativas de tipos penais, a justificativa era proteger a democracia de ameaças autoritárias. Diante dos últimos........
