Meritocracia, igualdade e os herdeiros do fracasso
Saí do que chamam de zero. É por isso que não acredito em quem diz que saiu do zero.
Pais separados, pai músico e alcoólatra, mãe sozinha, atendente das Casas Bahia, nenhum dos dois com o ensino médio terminado. Pelo manual do mérito, eu seria a prova de que esforço vence origem. Não vou servir de prova. A herança que recebi não cabia em inventário, mas existiu: minha mãe me deu caráter entre um boleto e uma chinelada, e caráter também é coisa que se herda.
Lembrei disso ao ler um colunista da Folha defender, com cuidado e um grau incomum de honestidade, uma ideia que parece inofensiva. Há uma desigualdade justa, diz ele: a que nasce quando pessoas largam do mesmo lugar e chegam a lugares diferentes por esforço e escolhas próprias. E há a injusta, a que vem de largadas desiguais, em que o resultado já fala mais da herança que de quem a recebeu. Até aí, quase todo mundo assina embaixo, certo?
Pela régua de Michael França, o mérito de uma geração será o privilégio na seguinte. A categoria que ele criou para salvá-lo é a máquina que o tritura
Pela régua de Michael França, o mérito de uma geração será o privilégio na seguinte. A categoria que ele criou para salvá-lo é a máquina que o tritura
O problema aparece quando ele puxa o fio. Resultado de uma geração vira oportunidade da seguinte: o filho do vencedor começa onde o pai parou. Estuda na escola que o........
